quinta-feira, 19 de maio de 2011

BEM AVENTURADOS OS HUMILDES DE ESPÍRITO

Mateus: 5, 1-3.

Na interpretação de Nietzsche, a humildade é simplesmente um aspecto da "moral dos escravos". É uma contestação ao pensamento religioso medieval, que apregoava a humildade como uma virtude pela qual o homem reconhece sua pequenez e seu pecado. Santo Agostinho enfatiza a via humilitalis, que é a encarnação do Verbo para redenção do homem. Santo Tomás considerava a humildade como a parte da virtude que coordena o desejo humano às coisas mais altas. Kant distingue a humildade em duas formas: moral, que é a consciência de nossa pequenez; e espúria, que é uma renúncia premeditada para a obtenção de um valor oculto.

Diante de tantos conceitos eu leio e releio o texto bíblico. Na tentativa mais profunda de entendê-lo, vejo uma multidão parada, contemplativa, sem proposta objetiva, sem provisões adequadas para ali estar, sob o jugo da escravidão romana à espera de um milagre. Humildemente a multidão aguardava. Numa análise fria, admito que a História da Igreja Cristã registre um permanente esforço das autoridades político-eclesiásticas de domínio sobre o povo, servindo-se das palavras de Cristo e pregando um modelo de virtude comportamental de submissão, interpretado por humildade. Nesse sentido a humildade é espúria, ou uma característica fundamental da escravidão.

Ainda na cena do texto, podemos ver os discípulos chegando perto de Jesus, que passou a ensiná-los. É nesse momento que entendo o que é humildade. O autorreconhecimento da pequenez e consequente incapacidade são fundamentos para a inconformidade existencial, que gera uma ação objetiva de desenvolvimento. E os discípulos foram à busca do conhecimento que lhes faltava, ainda que não tivessem plena consciência do que lhes movia para junto do Mestre. Motivados pela ação da humildade que eles iriam conhecer naquele momento, da boca do Cristo: "Bem aventurado os humildes, pois deles é o reino dos céus."

O reino dos céus é o lugar dos humildes. Porque os humildes enxergam as fragilidades dos valores culturais humanos. Eles percebem que o tempo escapa ao domínio humano: e tudo passa. A própria vida passa. Os humildes desprezam os valores morais que sustentam a sociedade humana, isso não significa um pacto pró miséria, e se lançam ao eterno num constante aprendizado de vida e fé. Os humildes não estão embaixo do monte, nem longe do Mestre, muito menos abestados na vida. A humildade não é pequena e sim grandiosa. A humildade não é alcançável intelectualmente, mas é fruto da ação redentiva de Deus e da conversão humana. Conversão que liberta e rompe as fronteiras do tempo e do espaço. E inaugura um novo tempo, uma nova vida capaz de compreender melhor  o mundo dos homens. Não existe conversão sem que se manifeste a verdadeira humildade.

Bem aventurados os convertidos, pois deles são o reino dos céus.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

SOBRE O BATISMO

Mateus: 3, 11-17.

A História da Igreja tem mostrado a importância do batismo em sua teologia e em sua liturgia ao longo dos anos. Em todas as formas religiosas cristãs o batismo se tornou sacramento de conversão, de iniciação, de mudança de vida, de testemunho de fé. O batismo tonou-se dogma teológico exceto pela sua forma, cujas discussões ainda se ouvem por aí. Aspersão, imersão, infantil, na maior idade, tem gente que chega a escrever livro tentando defender posições e teorias improváveis, quase sempre em defesa da ordem doutrinária. Pessoalmente, cheguei a defender a utilização do spray, pela praticidade e higiene, além de ser recarregável.

A igreja é assim. Perde-se na superfície dos grandes temas, preocupa-se com a forma e não digere a essência. Compreender o batismo não é difícil. Aceitá-lo sob que forma for também não é difícil. No entanto, o batismo de Jesus me aguça o pensamento. Por que Jesus permitiu-se batizar por João Batista? Teria o ato do batismo algo especial? Jesus pretenderia validar o batismo como uma marca sagrada de testemunho de fé? Ou Jesus apenas queria prestigiar o ministério de João?

Jesus de Nazaré se apresenta a João como homem. E como homem vai ao encontro da água, do arrependimento e do perdão. Água que lava, limpa e determina o fim da época da religião formal, legal, coletiva e ineficaz, dando início ao período messiânico. Como Deus no Éden moldou com suas próprias mãos Adão e lhe soprou as narinas, Jesus, homem Deus, por iniciativa própria, vai ao encontro das águas do batismo para inaugurar um novo Éden – a imagem e a semelhança de Deus – a comunhão perdida. O batismo não se sacralizou pelas águas ou pela ação de João, profeta de Deus batizante dos filhos da promessa e sim pela providência divina que inaugura o ministério de Jesus, mas para o encontro de sua missão redentiva.

O batismo como compromisso humano é ato vazio e de pequeno efeito. No batismo de Jesus percebemos mais do que o testemunho dele mesmo ou de João, mas o testemunho de Deus, que responde a necessidade humana de mudança. E o céu se abre e o Espírito de Deus promove festa de luzes e forma corpórea de testemunho que só Jesus percebe e que só um batizando poderia perceber. Deus sempre acreditou em nós. Não podemos enxergar a ação crédula de Deus, que faz festa quando um de Seus filhos o reencontra restabelecendo os vínculos da relação primeira, é impossível discernir um ato psicoemocional do verdadeiro milagre de Deus, pois na nova aliança este momento é muito íntimo, privativo do Deus Trino e de seu filho regenerado, nós.

A reflexão sobre o batismo é reflexão sobre a ação de Deus. Discutir sobre formas e condições é só para quem tem procuração divina com firma reconhecida. E como João, precisamos pregar e batizar sem distinção de pessoas, de culturas e ambientes, na certeza de que somente Deus promove a plena regeneração de seus filhos. E este ato Divino é privativo. Jamais poderemos enxergar.