Mateus: 5, 1-3.
Na interpretação de Nietzsche, a humildade é simplesmente um aspecto da "moral dos escravos". É uma contestação ao pensamento religioso medieval, que apregoava a humildade como uma virtude pela qual o homem reconhece sua pequenez e seu pecado. Santo Agostinho enfatiza a via humilitalis, que é a encarnação do Verbo para redenção do homem. Santo Tomás considerava a humildade como a parte da virtude que coordena o desejo humano às coisas mais altas. Kant distingue a humildade em duas formas: moral, que é a consciência de nossa pequenez; e espúria, que é uma renúncia premeditada para a obtenção de um valor oculto.
Diante de tantos conceitos eu leio e releio o texto bíblico. Na tentativa mais profunda de entendê-lo, vejo uma multidão parada, contemplativa, sem proposta objetiva, sem provisões adequadas para ali estar, sob o jugo da escravidão romana à espera de um milagre. Humildemente a multidão aguardava. Numa análise fria, admito que a História da Igreja Cristã registre um permanente esforço das autoridades político-eclesiásticas de domínio sobre o povo, servindo-se das palavras de Cristo e pregando um modelo de virtude comportamental de submissão, interpretado por humildade. Nesse sentido a humildade é espúria, ou uma característica fundamental da escravidão.
Ainda na cena do texto, podemos ver os discípulos chegando perto de Jesus, que passou a ensiná-los. É nesse momento que entendo o que é humildade. O autorreconhecimento da pequenez e consequente incapacidade são fundamentos para a inconformidade existencial, que gera uma ação objetiva de desenvolvimento. E os discípulos foram à busca do conhecimento que lhes faltava, ainda que não tivessem plena consciência do que lhes movia para junto do Mestre. Motivados pela ação da humildade que eles iriam conhecer naquele momento, da boca do Cristo: "Bem aventurado os humildes, pois deles é o reino dos céus."
O reino dos céus é o lugar dos humildes. Porque os humildes enxergam as fragilidades dos valores culturais humanos. Eles percebem que o tempo escapa ao domínio humano: e tudo passa. A própria vida passa. Os humildes desprezam os valores morais que sustentam a sociedade humana, isso não significa um pacto pró miséria, e se lançam ao eterno num constante aprendizado de vida e fé. Os humildes não estão embaixo do monte, nem longe do Mestre, muito menos abestados na vida. A humildade não é pequena e sim grandiosa. A humildade não é alcançável intelectualmente, mas é fruto da ação redentiva de Deus e da conversão humana. Conversão que liberta e rompe as fronteiras do tempo e do espaço. E inaugura um novo tempo, uma nova vida capaz de compreender melhor o mundo dos homens. Não existe conversão sem que se manifeste a verdadeira humildade.
Bem aventurados os convertidos, pois deles são o reino dos céus.