domingo, 21 de agosto de 2011

BEM AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA


Mateus: 5, 6

Vivemos num mundo de injustiças. Nunca estamos satisfeitos com o que temos e julgamo-nos merecedores de maiores favores da vida. Julgamos nossos atos comparando-nos a outras pessoas e, de modo geral, não encontramos motivos para sermos menos beneficiados do que nossos pares. Por outro lado, os homens se agridem mutuamente, gerando danos físicos, morais e financeiros. É para arbitrar sobre essas questões que a sociedade vive sob leis, que visam garantir o direito individual e coletivo das pessoas.

O mundo clama por justiça. Das questões mais básicas da sobrevivência a polêmicas de fórum internacional ou multinacional. Justiça pelo direito de cultivo da terra, justiça pela soberania de uma nação, justiça pelo direito ao pão, justiça para a violência urbana que mata mais do que uma guerra e torna o cidadão refém do crime organizado, prisioneiro em seu espaço residencial como um animal em cativeiro. A sociedade não distingue mais a ação de policias e de bandidos e a indignação pelos desrespeitos aos valores humanos e sociais fazem eclodir do peito o clamor desesperado e muitas vezes agonizante: justiça!

Nesse momento eu paro e medito sobre as palavras de Jesus. Não pode ser desta justiça que Jesus falava; a justiça dos homens. Ele mesmo foi julgado e crucificado injustamente! Talvez a chave para compreendermos o texto não esteja na justiça, mas nas suas conseqüências: a fome e a sede. Ah! O que representam a fome e a sede? Carência de vitalidade, possibilidade de morte, desejo incontrolável de suprir a vida dos elementos que a sustenta, sintoma inequívoco de debilidade física que põe em risco o existir, que gera distúrbios no corpo e na mente. Você já dormiu com muita fome? Não é difícil lembrar-se dos sonhos de uma noite de fome. É uma necessidade tão vital que a própria sociedade garante o direito, nesses casos, de qualquer pessoa se alimentar sem nenhum preço a pagar. A fome não gera clamor e sim ação vigorosa na medida de sua necessidade.

É preciso ter fome e sede da justiça divina para recebê-la com fartura. A justiça divina, que não é cega, mas enxerga cada ser humano em sua alma em sua necessidade vital, em sua sucumbência temporal. Fome e sede da alma são desejos de Deus. De libertação do jugo do pecado e de receber a justiça que emana de Deus: vida plena, liberta e eterna. Bem aventurados os que sentem vontade de viver. Bem aventurados os que não suportam a angústia da morte e buscam a plenitude da vida na mesa farta do Senhor Jesus. Bem aventurados os que não se conformam com o juízo de Adão e buscam em Cristo o restabelecimento da justiça de Deus.

Bem aventurado o homem que se refez em Cristo. Que parte o pão e toma o vinho, saciando seu corpo dos elementos vitais, satisfazendo sua alma e se reabilitando à comunhão eterna de Deus.

BEM AVENTURADOS OS MANSOS DE ESPÍRITO


Mateus: 5, 5.

Quando era bem menino, lembro-me bem, meu pai nos levava frequentemente a passeios pelos morros da Ilha do Governador. Por matas e barrancos apreciávamos as paisagens e sentíamos os deliciosos cheiros das plantas, flores e árvores, muitas vezes misturados aos odores do mar trazidos pelo vento que nos batia à face. Um blended de odores que não sai nunca mais da memória.

Fui criado assim por meu pai, aproveitando todo o tempo possível para correr estrada e fotografar na mente as mais belas paisagens da vida, a obra de Deus. Contudo, coisa de criança, sempre me perguntava: de quem é essa terra? Se foi Deus quem a criou, como alguém se fez dono? Acho que até hoje eu não tenho resposta para as perguntas daquele menino que, percebendo a presença criadora e sustentadora de Deus diante de tamanha beleza e de tantas cores, formas, cheiros e vidas não compreendia o direito de propriedade humano.

Na maturidade pude entender que o sentimento do menino estava certo. As crianças não contaminadas pelos pensamentos dos adultos não conhecem os limites impostos pela cultura humana. São humildes em sua estrutura natural. E invadem os espaços sem constrangimentos, brincam nos campos, desvendam os mistérios das trilhas da mata como se estivessem no que é seu. Tomam posse de qualquer lugar sem cerimônia.

Quem é dono de alguma coisa? Os mansos, humildes, convertidos herdarão a Terra. Por que não existe nada humano além de uma posse temporal. E o tempo é impiedoso com os posseiros deste mundo; as varas cíveis são testemunhas das desavenças enquanto as propriedades se deterioram ou são invadidas por novos posseiros. Posse, poder, capital, tecnologia, informação, domínio de mercado. Cultura humana que o tempo não perdoa. Posse de bens, de conhecimento, de emprego, de empresa, de capital, de títulos sociais: doutores e excelências; pensamos que temos tudo e dizemos que somos aquilo que temos.

Bem aventurados os que com Deus desfrutam sem limites de toda a Terra, onde os limites humanos transcendem o conceito terreno das possibilidades e a tecnologia não impõe limite, as estratégias operadoras e empreendedoras de capital são entendidas como atividades abençoadoras de vidas e o lucro não é propriedade, mas instrumento gerador de prazer. E a maior titularidade é servo do único Senhor, Criador de todas as coisas.

Bem aventurados os humildes, os convertidos, os que choram a pequenez dos que se julgam grandes donos deste mundo, pois em sua humildade não conhecem os limites do mundo e no Espírito de Deus desfrutam de todas as possibilidades do Ser em manifesto estado de prazer e felicidade. Bem aventurados os mansos, pois somente eles herdam sem limites o mundo de Deus.

BEM AVENTURADOS OS QUE CHORAM


Mateus: 5,4.

Pessoas choram. Choram as emoções que sentem, às vezes boas, outras vezes ruins. Emoções que as atingem, causando desequilíbrio. Choram de dor provocada por uma lesão física, por falta de liberdade. Choram por ausências nessa vida, choram por fome e miséria. Pessoas choram por desilusões amorosas, por insucessos profissionais, por falta de aceitação social. Pessoas choram por todas as vitórias conquistadas, dizem que é o choro da felicidade. Os homens choram por amor e ódio simultaneamente. Seriam todos os chorosos bem aventurados?

Existe o choro motivado por uma agressão pessoal, onde é o indivíduo em particular que é agredido, magoado, ferido em sua estrutura pessoal, cuja causa pode ser consequência de ato ou postura equivocada do indivíduo ou de terceiros. A morte, por exemplo, é causa universal de pranto. Súbita, cruel, definitiva, a morte é sempre uma surpresa que traz em si a dor insuportável da separação, do fim. O choro do agredido encontra em Deus o consolo incondicional. Não existe maior conforto do que o colo divino que nos conforta com um acalanto maternal na medida de nossa dor, enxugando nossas lágrimas e mostrando-nos novas esperanças.

Mas existe um outro choro. O choro dos humildes, dos convertidos. Esse choro não é igual ao outro, pois, ao contrário do primeiro, a causa não está associada a uma agressão pessoal e sim existencial. É o choro sagrado diante da pequenez perversa do homem mesquinho e egocêntrico. É o pranto santo pelas vítimas dos valores humanos temporais. É como se Deus chorasse a destruição, a infelicidade, a ansiedade, a insaciável forma de ser de Sua criação, cuja vocação primeira fora a eternidade num plano espiritual em Sua permanente companhia. Choro de Deus através do homem pelos homens, que não se permitem acolher pela graça divina, que vive o seu curto tempo como se fosse eterno, definitivo e absoluto.

Poucos homens podem chorar o choro sagrado. Ter a capacidade de transcender, pela conversão, os limites do racionalmente correto e amar a humanidade na semelhança do amor de Deus. Ver com humildade a performance humana na arena da vida, onde as vitórias geram morte e são comemoradas até o próximo combate.

Bem aventurados os que choram o choro dos santos, sagrado. Cujo consolo é a graça de Deus manifesta na permanente comunhão. Promessa divina que se renova em cada nova conversão. Bem aventurados os humildes, que choram porque enxergam onde os olhos não vêem, sentem na alma a compaixão que os homens não sentem com a razão, vivem o amor inalcançável pelas pelejas da sobrevivência.

Bem aventurados os humildes, que são capazes de chorar. Eles amam. Amor pleno de Deus, que desvenda a eternidade, promovendo o pranto da compaixão do que é pelos que pensam ser.