Mateus: 5, 5.
Quando era bem menino, lembro-me bem, meu pai nos levava frequentemente a passeios pelos morros da Ilha do Governador. Por matas e barrancos apreciávamos as paisagens e sentíamos os deliciosos cheiros das plantas, flores e árvores, muitas vezes misturados aos odores do mar trazidos pelo vento que nos batia à face. Um blended de odores que não sai nunca mais da memória.
Fui criado assim por meu pai, aproveitando todo o tempo possível para correr estrada e fotografar na mente as mais belas paisagens da vida, a obra de Deus. Contudo, coisa de criança, sempre me perguntava: de quem é essa terra? Se foi Deus quem a criou, como alguém se fez dono? Acho que até hoje eu não tenho resposta para as perguntas daquele menino que, percebendo a presença criadora e sustentadora de Deus diante de tamanha beleza e de tantas cores, formas, cheiros e vidas não compreendia o direito de propriedade humano.
Na maturidade pude entender que o sentimento do menino estava certo. As crianças não contaminadas pelos pensamentos dos adultos não conhecem os limites impostos pela cultura humana. São humildes em sua estrutura natural. E invadem os espaços sem constrangimentos, brincam nos campos, desvendam os mistérios das trilhas da mata como se estivessem no que é seu. Tomam posse de qualquer lugar sem cerimônia.
Quem é dono de alguma coisa? Os mansos, humildes, convertidos herdarão a Terra. Por que não existe nada humano além de uma posse temporal. E o tempo é impiedoso com os posseiros deste mundo; as varas cíveis são testemunhas das desavenças enquanto as propriedades se deterioram ou são invadidas por novos posseiros. Posse, poder, capital, tecnologia, informação, domínio de mercado. Cultura humana que o tempo não perdoa. Posse de bens, de conhecimento, de emprego, de empresa, de capital, de títulos sociais: doutores e excelências; pensamos que temos tudo e dizemos que somos aquilo que temos.
Bem aventurados os que com Deus desfrutam sem limites de toda a Terra, onde os limites humanos transcendem o conceito terreno das possibilidades e a tecnologia não impõe limite, as estratégias operadoras e empreendedoras de capital são entendidas como atividades abençoadoras de vidas e o lucro não é propriedade, mas instrumento gerador de prazer. E a maior titularidade é servo do único Senhor, Criador de todas as coisas.
Bem aventurados os humildes, os convertidos, os que choram a pequenez dos que se julgam grandes donos deste mundo, pois em sua humildade não conhecem os limites do mundo e no Espírito de Deus desfrutam de todas as possibilidades do Ser em manifesto estado de prazer e felicidade. Bem aventurados os mansos, pois somente eles herdam sem limites o mundo de Deus.
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