Evangelho de João 1, 1- 16.
E o verbo era Deus. E por Ele
tudo foi feito. Conjugação harmoniosamente criadora, expansão de amor produtivo
e fecundo, nos detalhes mais pequeninos a atenção cuidadosa para gerar o
equilíbrio físico, biológico e químico do universo. E pelo verbo, palavra de
ação, Deus a tudo criou. E o universo brotou do nada em explosão de vida e
beleza, perfeito equilíbrio de astros que bailam nos céus com movimentos
variados e divertidos. Dia e noite Deus criou. Estrelas cadentes enfeitam as
noites enquanto cometas velozes disputam corridas intermináveis e os sóis
iluminam e aquecem inúmeros planetas, espectadores e hospedeiros de incontáveis
criaturas. Pelo verbo, pela palavra.
Mas a ação Divina revela,
surpreendentemente, uma nova conjugação, um novo verbo, uma nova ação. “Façamos
o homem”. Com as mãos, com o sopro, doação de imagem e semelhança. Desejo
inequívoco de Deus, explosão eterna de amor. Criatura amada, criada para amar
aquilo que foi criado, expandindo-se em amor, gerando vida que é o fruto maior
do amor. Contemplar a beleza do universo criado, visitar cada estrela, cada
planeta, cada céu, cada criatura, na eterna companhia de Deus.
Contudo, o desejo de Deus se fez
carne e habitou um planeta temporal, com criaturas igualmente temporais, que se
comem mutuamente, se mastigam, para sustentar a vida. Perdeu-se do amor, perdeu
o amor, deixou de amar. Os astros se tornaram um mistério insondável,
divinizados pelos primitivos, temidos pelos de maior conhecimento. O medo de
deixar de existir impera na consciência humana e a razão aflorou ancorada de
imbecilidade do pensamento cartesiano, determinando conceitos de ser e existir
absurdos aos olhos divinos. Muita gente morre por pensar e agir diferente.
Muita gente mata, rouba e destrói o próprio planeta seguindo a razão e atendendo
falsas necessidades.
E é por este homem, desejo de
Deus, fruto de seu amor, que o verbo se fez carne e habitou entre nós. Não, não
foi para cumprir uma liturgia judaica, tão pagã como todas as que sacrificavam
as criaturas de Deus a ídolos e a deuses desconhecidos. Foi para resgatar,
tirar os limites a que o próprio homem se impôs. Vencer com vida a morte, nossa
única criação. Retirar a âncora da razão, e nos mostrar as possibilidades
primeiras. Caminhar sobre o mar, por entre os astros, não por poder, mas por expressão
de amor. E habitou entre nós, para ensinar, para amar, satisfazer a saudade de
seu desejo, e chamar-nos à sua companhia eterna, mesmo aqui, nesse “mundinho”.
Natal. Festa da vida, do amor. Festa de Deus oferecida à
humanidade. Conjugação de verbos que a razão não conhece. A razão não estava no
início. “No princípio era o Verbo”, só o Verbo, que é Deus, ilumina a vida e dá
sentido ao Natal.
Wagner Winter –
Reflexões de Boletim, Rio de Janeiro, 1997.
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