quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Motivo do Natal

Evangelho de João 1, 1- 16.


E o verbo era Deus. E por Ele tudo foi feito. Conjugação harmoniosamente criadora, expansão de amor produtivo e fecundo, nos detalhes mais pequeninos a atenção cuidadosa para gerar o equilíbrio físico, biológico e químico do universo. E pelo verbo, palavra de ação, Deus a tudo criou. E o universo brotou do nada em explosão de vida e beleza, perfeito equilíbrio de astros que bailam nos céus com movimentos variados e divertidos. Dia e noite Deus criou. Estrelas cadentes enfeitam as noites enquanto cometas velozes disputam corridas intermináveis e os sóis iluminam e aquecem inúmeros planetas, espectadores e hospedeiros de incontáveis criaturas. Pelo verbo, pela palavra.

Mas a ação Divina revela, surpreendentemente, uma nova conjugação, um novo verbo, uma nova ação. “Façamos o homem”. Com as mãos, com o sopro, doação de imagem e semelhança. Desejo inequívoco de Deus, explosão eterna de amor. Criatura amada, criada para amar aquilo que foi criado, expandindo-se em amor, gerando vida que é o fruto maior do amor. Contemplar a beleza do universo criado, visitar cada estrela, cada planeta, cada céu, cada criatura, na eterna companhia de Deus.

Contudo, o desejo de Deus se fez carne e habitou um planeta temporal, com criaturas igualmente temporais, que se comem mutuamente, se mastigam, para sustentar a vida. Perdeu-se do amor, perdeu o amor, deixou de amar. Os astros se tornaram um mistério insondável, divinizados pelos primitivos, temidos pelos de maior conhecimento. O medo de deixar de existir impera na consciência humana e a razão aflorou ancorada de imbecilidade do pensamento cartesiano, determinando conceitos de ser e existir absurdos aos olhos divinos. Muita gente morre por pensar e agir diferente. Muita gente mata, rouba e destrói o próprio planeta seguindo a razão e atendendo falsas necessidades.

E é por este homem, desejo de Deus, fruto de seu amor, que o verbo se fez carne e habitou entre nós. Não, não foi para cumprir uma liturgia judaica, tão pagã como todas as que sacrificavam as criaturas de Deus a ídolos e a deuses desconhecidos. Foi para resgatar, tirar os limites a que o próprio homem se impôs. Vencer com vida a morte, nossa única criação. Retirar a âncora da razão, e nos mostrar as possibilidades primeiras. Caminhar sobre o mar, por entre os astros, não por poder, mas por expressão de amor. E habitou entre nós, para ensinar, para amar, satisfazer a saudade de seu desejo, e chamar-nos à sua companhia eterna, mesmo aqui, nesse “mundinho”.

Natal. Festa da vida, do amor. Festa de Deus oferecida à humanidade. Conjugação de verbos que a razão não conhece. A razão não estava no início. “No princípio era o Verbo”, só o Verbo, que é Deus, ilumina a vida e dá sentido ao Natal.

Wagner Winter – Reflexões de Boletim, Rio de Janeiro, 1997.

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