sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Lei – Um Estilo Literário

Mateus: 5, 17-42

Dietrich Bonhoeffer escreveu: “parece ser certo que do convívio dos homens resultam leis que são mais fortes do que tudo que pretende sobrepujar-se a elas. Por esta razão não seria apenas injusto, mas também imprudente, desprezar estas leis.”.

Também da relação de Deus com os homens surgiu uma lei intransponível, que denuncia o pecado, a decadência e a apostasia do gênero humano da eternidade divina, revelando Jesus como a única e definitiva opção de salvação. E a lei, por conta das relações sociais, religiosas e étnicas, fecundou-se de humanismos e caracteres temporais mutantes conforme a história e os interesses sócio-eclesiásticos.

Deus não se sujeita à lei, pois não há competente juiz para julgá-Lo. Então a lei nos foi revelada por um gesto do amor divino, compreensivo e tolerante com as nossas formas de literatura religiosa. Pois é sob uma forma literária que pensamos e agimos. Somos prisioneiros das formas e pequenos como conteúdo. E é essa pequenez que valida a lei e seu “fiel” cumprimento, levando à condição de injustos e imprudentes aqueles que renegam a herança legal.

No texto bíblico, Jesus resgata com ênfase as verdades literárias expressas por Deus a Moisés, e vai além, ultrapassando à capacidade de compreensão de um conteúdo prisioneiro do tempo e do espaço: fez-se  imprudente para mudar o destino da humanidade. Ofereceu-se como cordeiro, entrou na literatura religiosa para ser punido por ser Deus e contrariar as leis intransponíveis até para os deuses.

Jesus não contestou a lei, apenas cumpriu-a com perfeição, retirando-a da literatura religiosa e inserindo-a na eternidade, sem limites e formas, sem pesos nem medidas. Resumiu a lei a uma consciência de amor mútuo entre Deus e os homens, revelando o poder transformador contido na intenção divina, oferecendo-se como meio de graça e de vida permanente.

Salve a lei! Salvem-se da lei.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A Lei – Anúncio Messiânico

Mateus: 5, 17-42

Numa segunda tese, entendemos a lei como uma providência para o anúncio messiânico, pois a Lei de Moisés não foi promulgada com um caráter jurídico, mas com uma clara intenção misericordiosa de Deus para com o homem. Aqui, a questão não é o cumprimento dos postulados legais, mas a clara demonstração da necessidade de uma mudança existencial, uma conversão em fé que gere um novo ser que assuma interiormente novos valores, tornando-se agentes modificadores da sociedade. Pela conversão, a lei sai do papel e se imprime na alma humana, gerando amor, caridade, compaixão e esperança nas ações salvadoras de Deus.

A lei anuncia a Jesus, pois só Jesus pode transformar o gênero humano, quebrando a cadeias de valores da humanidade e alterando por completo o destino e a vocação dos homens. Embora, a lei seja usada pelos homens para julgar e condenar, pois a sociedade só conhece o contexto jurídico da lei, Deus promulga e utiliza a lei como instrumento de denúncia dos equívocos humanos, e de redenção na medida em que é um forte apelo a conversão e a vida eterna.

A impossibilidade do cumprimento da lei, por iniciativa humana, em razão da incapacidade humana de interpretar a lei corretamente, é de pleno conhecimento de Deus, como afirma Jesus: Basta ao homem pensar, pois na intimidade do ser o homem se revela apostatado por inteiro de Deus. A conversão é a única forma de reverter a história. Os Patriarcas judaicos viveram pela fé sem a lei na esperança messiânica do novo reino e de uma grande nação. Sobre o prisma da conversão, também viveram os profetas, repudiando, com oráculos específicos, todas as práticas litúrgicas e legais do povo judeu, demonstrando que os ritos não correspondiam às atitudes geradas por uma verdadeira conversão.

Ainda hoje o cristianismo está impregnado de legalismos e legalistas, que renunciam a Jesus em favor de um sistema de leis e regras sem fim, tendo como característica julgar e disciplinar ou condenar seus semelhantes. O cristianismo assumiu a forma de uma religião qualquer, e os “cristãos” não passam de escravos de regras e normas estranhas a teologia bíblica, tendo como práxis esforços e penitências para agradar a Deus.

A lei não passará, nem será alterada e ninguém conseguirá viver por ela. A lei anuncia o Cristo, única fonte de vida e regeneração, única possibilidade de conversão, de mudança e de liberdade. A fé não faz prisioneiros, mas liberta a vida para o prazer, a felicidade e a eternidade.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A Lei – Símbolo do Impossível

Mateus: 5, 17-42

As primeiras questões em que penso são: quem elaborou a Lei do Velho Testamento? O que existe de verdade divina na lei mosaica e para que serve uma lei impossível de ser cumprida?

A primeira tese é que a lei não demonstra tão claramente quanto parece ser a vontade de Deus para ser seguida com rigorosa devoção, antes, expressa um estado de vida. Ausência de Deus, ausência de Jesus, ausência do elemento divino que compõe a história da vida eterna e transforma as realidades existenciais. A lei não salva, ao contrário, condena, gera discórdia, alimenta diferenças sociais e culturais promovendo a guerra e a destruição da raça humana. É então que associo a lei a um marco instituído por Deus para testificar ao homem a sua incompetência material, temporal e existencial, mesmo quando ele tenta promover-se ao sagrado.

A lei é um claro sinal das impossibilidades, aprisionando o corpo e o espírito humano a regras, formas, modelos, todos fúteis e levianos para com o sagrado. E a natureza humana parece vocacionada para estar prisioneira de leis, pois vivemos num mundo de espaços pequenos, de valores restritos, de pensamentos mesquinhos, em que só o vento pode ir e vir livremente e desembaraçadamente. Saímos do Éden para criar padrões divinos que substituíssem a presença de Deus. Criamos divindades cultuáveis e determinamos quem e o que é mais santo, mais sagrado. E nos obrigamos a ritos e liturgias, a formas e processos limitantes, restringindo os poucos espaços, vedando o mundo à própria presença de Deus, mas, matando e roubando, destruindo nossos semelhantes e o conjunto dos seres que formam o nosso ecossistema. É pela lei que ás mortes na Palestina não cessam.

Jesus afirma que a lei jamais mudará, como não mudará o destino da humanidade sem que se vá muito além da justiça dos escribas e fariseus. Sem que haja uma conversão que instaure um novo reino, um novo rei, um novo homem e o verdadeiro e eterno Deus. Jesus é o Deus conosco, o Deus em nós, que imprime na alma um desejo irresistível de comunhão universal, de tolerância desmedida, de amor transbordante pela vida.

Venha o Teu reino, onde não existem juízes julgadores de ninguém, onde a vocação humana é viver além da plenitude dos tempos, onde os escribas dissertam poesias e fariseus lustram os móveis e a lei é um símbolo do passado, de um tempo que não voltará jamais.