quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A Lei – Símbolo do Impossível

Mateus: 5, 17-42

As primeiras questões em que penso são: quem elaborou a Lei do Velho Testamento? O que existe de verdade divina na lei mosaica e para que serve uma lei impossível de ser cumprida?

A primeira tese é que a lei não demonstra tão claramente quanto parece ser a vontade de Deus para ser seguida com rigorosa devoção, antes, expressa um estado de vida. Ausência de Deus, ausência de Jesus, ausência do elemento divino que compõe a história da vida eterna e transforma as realidades existenciais. A lei não salva, ao contrário, condena, gera discórdia, alimenta diferenças sociais e culturais promovendo a guerra e a destruição da raça humana. É então que associo a lei a um marco instituído por Deus para testificar ao homem a sua incompetência material, temporal e existencial, mesmo quando ele tenta promover-se ao sagrado.

A lei é um claro sinal das impossibilidades, aprisionando o corpo e o espírito humano a regras, formas, modelos, todos fúteis e levianos para com o sagrado. E a natureza humana parece vocacionada para estar prisioneira de leis, pois vivemos num mundo de espaços pequenos, de valores restritos, de pensamentos mesquinhos, em que só o vento pode ir e vir livremente e desembaraçadamente. Saímos do Éden para criar padrões divinos que substituíssem a presença de Deus. Criamos divindades cultuáveis e determinamos quem e o que é mais santo, mais sagrado. E nos obrigamos a ritos e liturgias, a formas e processos limitantes, restringindo os poucos espaços, vedando o mundo à própria presença de Deus, mas, matando e roubando, destruindo nossos semelhantes e o conjunto dos seres que formam o nosso ecossistema. É pela lei que ás mortes na Palestina não cessam.

Jesus afirma que a lei jamais mudará, como não mudará o destino da humanidade sem que se vá muito além da justiça dos escribas e fariseus. Sem que haja uma conversão que instaure um novo reino, um novo rei, um novo homem e o verdadeiro e eterno Deus. Jesus é o Deus conosco, o Deus em nós, que imprime na alma um desejo irresistível de comunhão universal, de tolerância desmedida, de amor transbordante pela vida.

Venha o Teu reino, onde não existem juízes julgadores de ninguém, onde a vocação humana é viver além da plenitude dos tempos, onde os escribas dissertam poesias e fariseus lustram os móveis e a lei é um símbolo do passado, de um tempo que não voltará jamais.

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