Mateus: 5, 17-42
Numa segunda tese, entendemos a lei
como uma providência para o anúncio messiânico, pois a Lei de Moisés não foi
promulgada com um caráter jurídico, mas com uma clara intenção misericordiosa
de Deus para com o homem. Aqui, a questão não é o cumprimento dos postulados
legais, mas a clara demonstração da necessidade de uma mudança existencial, uma
conversão em fé que gere um novo ser que assuma interiormente novos valores,
tornando-se agentes modificadores da sociedade. Pela conversão, a lei sai do
papel e se imprime na alma humana, gerando amor, caridade, compaixão e
esperança nas ações salvadoras de Deus.
A lei anuncia a Jesus, pois só
Jesus pode transformar o gênero humano, quebrando a cadeias de valores da
humanidade e alterando por completo o destino e a vocação dos homens. Embora, a
lei seja usada pelos homens para julgar e condenar, pois a sociedade só conhece
o contexto jurídico da lei, Deus promulga e utiliza a lei como instrumento de
denúncia dos equívocos humanos, e de redenção na medida em que é um forte apelo
a conversão e a vida eterna.
A impossibilidade do cumprimento
da lei, por iniciativa humana, em razão da incapacidade humana de interpretar a
lei corretamente, é de pleno conhecimento de Deus, como afirma Jesus: Basta ao
homem pensar, pois na intimidade do ser o homem se revela apostatado por
inteiro de Deus. A conversão é a única forma de reverter a história. Os
Patriarcas judaicos viveram pela fé sem a lei na esperança messiânica do novo
reino e de uma grande nação. Sobre o prisma da conversão, também viveram os
profetas, repudiando, com oráculos específicos, todas as práticas litúrgicas e
legais do povo judeu, demonstrando que os ritos não correspondiam às atitudes
geradas por uma verdadeira conversão.
Ainda hoje o cristianismo está
impregnado de legalismos e legalistas, que renunciam a Jesus em favor de um sistema
de leis e regras sem fim, tendo como característica julgar e disciplinar ou
condenar seus semelhantes. O cristianismo assumiu a forma de uma religião
qualquer, e os “cristãos” não passam de escravos de regras e normas estranhas a
teologia bíblica, tendo como práxis esforços e penitências para agradar a Deus.
A lei
não passará, nem será alterada e ninguém conseguirá viver por ela. A lei
anuncia o Cristo, única fonte de vida e regeneração, única possibilidade de
conversão, de mudança e de liberdade. A fé não faz prisioneiros, mas liberta a
vida para o prazer, a felicidade e a eternidade.
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