sexta-feira, 2 de setembro de 2011

VIDA (AINDA SOBRE OS LIMPOS DE CORAÇÃO)


Isaías 6: 1-3 / Homilia pelo Rev. Zaqueu Ribeiro

“No ano da morte do rei Uzias...”

Enquanto alguns pranteavam a perda do rei, outros comemoravam sua sucessão. Enquanto os poderes políticos e econômicos planejavam as estratégias de governabilidade e produção, muitos como nós, se angustiavam com o futuro de suas vidas. Enquanto os sacerdotes conclamavam ao povo à realização dos ofícios litúrgicos e, ao mesmo tempo, uniam-se ao poderes governativos do novo reino, havia as incertezas das mudanças duras que a vida e o tempo obrigam constantemente o homem a fazer e a viver.

“... eu vi o Senhor...”.

Se a morte do rei Uzias marcou aquele tempo do profeta, outras mortes marcam os nossos tempos. Porque a morte é capaz de marcar muito mais do que a vida. Pois o primeiro ato da vida é lutar contra a morte. A vida luta sem estratégia eficaz, onde a morte se faz presente dia a dia, até que vença e a vida sucumba em morte.

É no contexto da morte que o homem cria valores que disfarçam a impotência da vida diante da morte. A sociedade está disposta em áreas de valores tais como: governo, capital, trabalho, cultura, religião, ciência, esporte, arte, mídia e muitas outras. A humanidade se projeta por aquilo que faz e se sustenta emocionalmente por valores gestados apenas pela necessidade de ser e de existir. Até que as tragédias da vida retirem as seguranças sociais alcançadas, e instaure-se a crise que nos traz a lembrança da morte.

Este é o contexto humano. Frágil em sua essência, delicado em seu ambiente, repleto de carências e em permanente contato com a morte simbolizada por todas as derrotas sociais. É diante de tantas impressões ruins que o profeta diz: eu vi o Senhor.

Eu também O vi. E as derrotas sociais perderam o valor de morte, porque a esperança na vida ficou marcada em minha alma no momento em que eu O vi. O Senhor é a vida que venceu por mim a morte. Não testemunho do alto do poder humano, ao contrário. Mas falo na presença Daquele que me gerou vida eterna, que predestinou-me à vitória sobre a vida e sobre a morte.

No tempo da minha morte eu vi o Senhor, venci a morte e guardo a esperança da vida renovada pelo Senhor dia após dia.

BEM AVENTURADO OS LIMPOS II


Mateus: 5, 8

Assisti uma reportagem sobre uma ordem religiosa que se mantém em eterna clausura. Eles se mantêm fora do mundo, fora da sociedade, sem o menor contato com as pessoas e a vida. Nenhum prazer é desfrutável. Nenhum desejo é permitido. Por amor a Deus, vivem uma proposta de vida solitária, cujo objetivo único é estar na presença de Deus.

De modo geral todos têm uma proposta de vida para Deus. Nossas preces são prova disto. Propomos a Deus nossas idéias e vontades, nossos sonhos e esperanças, e, ao final, para garantir a eficácia da prece, incluímos um: seja feita à Tua vontade. Nossas propostas, nossas vidas. Formalismo do pecado humano, necessidade de conversar com Deus oferecendo alternativas as ações divinas. Soluções de gerente que se reúne com o presidente da empresa. Folha de parreira que sugere a solução do problema da nudez.

As multidões sempre têm propostas. A solidão é uma proposta. Conhecemos a Deus por nossas propostas e nossa fé é uma proposta de culto ao Deus que não enxergamos. Não enxergamos porque temos muitas e importantes propostas para Deus. Como enxergar um deus contido em nossas propostas? Como enxergar por detrás das folhas que cobrem nosso corpo e revestem nossa alma?

Bem aventurados os que enxergam a Deus. Eles são limpos despojados em suas propostas humanas. Não escondem seus corpos nus vestindo-se de santidade espúria e inócua. Não fazem esforços para demonstrar competência e talento diante de Deus, antes, assumem sua nudez, seu pecado, sua pequenez, sua vontade de prazeres e seu irresistível desejo de enxergar a Deus. E é esse desejo de Deus que leva a sucumbência nossas propostas tolas, inteiramente temporais, para assumirmos as propostas divinas de vida. Vida eterna. Propostas eternas.

Deus está ao alcance de todos, mas só os bens aventurados conseguem vê-lo na multidão, aqueles, limpos de coração.

BEM AVENTURADO OS LIMPOS


Mateus: 5, 8

No mundo religioso Deus é o contexto vital de todas as coisas. Outro dia, ouvindo um testemunho vocacional, percebi a insistência na afirmação de que Deus é a origem e o destino da vocação religiosa. E não cessamos de ouvir: Deus é tudo; Deus está nos vendo; Deus te pagará; Deus me orientou; Deus me livrou; Deus me abençoou; Deus me salvou. Todos falam em Deus enquanto muitos falam por Deus. Outros, contudo, se enriquecem a custa das pessoas que querem fazer de Deus um meio de solução para toda a sorte de problemas.

Apesar da grande religiosidade do povo, é dificílimo conhecer a Deus pelo que as pessoas falam e pensam. Em cada palavra um testemunho, um pensamento, um código religioso. A vontade de Deus emana da ótica humana e da confusa percepção da vida de cada fiel. Da repressão cultural às liberdades morais, cada grupo religioso pensa, ou imagina que pensa, de forma inteiramente diferente. Deus acaba se tornando o Deus do imediatismo humano.

Escondido pela pequenez do homem, propositadamente ou não, Deus observa a multidão que o procura, e diz: bem aventurados os limpos — ou puros — de coração, por que verão a Deus.

Ver a Deus é um privilégio de poucos. Somente os limpos de coração podem vê-lo. As multidões de religiosos definem a limpeza —ou pureza — de coração como uma candura da alma. Uma virtude moral, imune as tentações do pecado e dos desejos humanos. Mas o que significa, à luz da teologia bíblica, limpeza de coração? Não pode ser uma simples metáfora de ordem moral, pois a conseqüência de ver a Deus aprofunda a complexidade da causa.

A multidão não o enxergava como Deus, mas contemplava o mistério em sua aparência, como a demonstrar ao mundo a impossibilidade de distinguir a Deus com os olhos humanos. Limpo é vazio. Ausência de roteiros e códigos humanos. Inexistência de objetivos temporais sem pré definição do que se precisa enxergar. Limpar é morrer homem e renascer filho de Deus. É permitir a ação transformadora de Deus, refazendo a vida com dolorida morte. Não é fácil abrir mão de nossa humanidade. Quebrar padrões historicamente conhecidos e saltar sem pára-quedas numa experiência transcendente de fé. É caminhar no deserto, colhendo o maná, sem saudades das seguranças egípcias. É neste momento, que olhando para aquele homem de Nazaré, percebemos além de sua figura humana, a gloria majestosa de Deus.

O mundo religioso é ambiente para o desenvolvimento de uma grande fé. Mas não é bastante para garantir a comunhão com Deus. A comunhão é privilégio individual dos limpos, dos bem aventurados.

BEM AVENTURADOS OS MISERICORDIOSOS


Mateus: 5, 7

Ao longo da História da Igreja Cristã esse tema tem recebido a atenção de muitos pensadores. É um tema difícil, embora aparentemente óbvio, pois trata-se de algo muito conhecido, muito comum, muito humano. Misericórdia, compaixão... pena... .  Sob o ponto de vista da observação prática, a misericórdia tem sido exercida de maneira equivocada. Confundida com uma espécie de cumplicidade com a desgraça alheia. A valorização dos males, das desventuras, dos azares e das tragédias comovem, entorpecem, nos envolvem gerando um ambiente negativo na comunhão humana.

Nietzsche dizia que a misericórdia era um instinto depressivo e contagioso, debilitante de outros instintos que querem conservar e aumentar o valor da vida; é uma espécie de multiplicador da miséria humana, por isso é um dos instrumentos principais da decadência do homem.

O homem tem a capacidade de metabolizar miséria e verter-se em piedosas lágrimas que irrigam o solo do desalento germinando a piedade.

A misericórdia, dita por Cristo, não é um ato gerado por emoção, por pena. Antes é uma atitude intencional, pensada. Como uma bondade consciente, que não se engana em seu objetivo e natureza. Dizemo-nos misericordiosos quando sacrificamos um animal muito querido cuja vida seria um agonizante sofrimento. Misericórdia não é cumplicidade com a miséria e a desgraça do homem e muito menos o sentimento de pena de alguém por qualquer razão. Misericórdia é compromisso com o homem, independente de sua situação. Não é um sentimento, mas uma ação que resolve. Que restaura a dignidade valoriza a vida aumentando o prazer e a felicidade.

A misericórdia é um comprometimento interior que se cumpre dia a dia diante da vida dos homens que dele precisa. É compromisso de vida, de fé. Deus foi misericordioso conosco no "Jardim", decretando, antes que tudo acontecesse, morte para o conhecimento do "mal": uma escolha que seria feita pelo homem. De imediato inicia-se o processo de resgate, de regeneração e Deus age intensamente para oferecer ao homem uma nova oportunidade de escolha. A misericórdia não tem compromisso com a caridade, nem com a impunidade, pois a vida é um permanente desafio de seleções, de escolhas. E aos perdedores, as desgraças consequentes da má escolha. Atuar na recuperação do "desgraçado" é um ato de misericórdia, de lealdade com a vida, de lealdade a Deus e a sua criação.

Bem aventurado os misericordiosos, que não são enganados pelas histórias tristes da vida, mas atuam com firmeza na valorização das virtudes humanas, na recuperação do que foi perdido, e em especial, na anunciação do Cristo salvador e regenerador de toda a vida, eles alcançarão a misericórdia de Deus, para sempre.