sexta-feira, 2 de setembro de 2011

BEM AVENTURADO OS LIMPOS


Mateus: 5, 8

No mundo religioso Deus é o contexto vital de todas as coisas. Outro dia, ouvindo um testemunho vocacional, percebi a insistência na afirmação de que Deus é a origem e o destino da vocação religiosa. E não cessamos de ouvir: Deus é tudo; Deus está nos vendo; Deus te pagará; Deus me orientou; Deus me livrou; Deus me abençoou; Deus me salvou. Todos falam em Deus enquanto muitos falam por Deus. Outros, contudo, se enriquecem a custa das pessoas que querem fazer de Deus um meio de solução para toda a sorte de problemas.

Apesar da grande religiosidade do povo, é dificílimo conhecer a Deus pelo que as pessoas falam e pensam. Em cada palavra um testemunho, um pensamento, um código religioso. A vontade de Deus emana da ótica humana e da confusa percepção da vida de cada fiel. Da repressão cultural às liberdades morais, cada grupo religioso pensa, ou imagina que pensa, de forma inteiramente diferente. Deus acaba se tornando o Deus do imediatismo humano.

Escondido pela pequenez do homem, propositadamente ou não, Deus observa a multidão que o procura, e diz: bem aventurados os limpos — ou puros — de coração, por que verão a Deus.

Ver a Deus é um privilégio de poucos. Somente os limpos de coração podem vê-lo. As multidões de religiosos definem a limpeza —ou pureza — de coração como uma candura da alma. Uma virtude moral, imune as tentações do pecado e dos desejos humanos. Mas o que significa, à luz da teologia bíblica, limpeza de coração? Não pode ser uma simples metáfora de ordem moral, pois a conseqüência de ver a Deus aprofunda a complexidade da causa.

A multidão não o enxergava como Deus, mas contemplava o mistério em sua aparência, como a demonstrar ao mundo a impossibilidade de distinguir a Deus com os olhos humanos. Limpo é vazio. Ausência de roteiros e códigos humanos. Inexistência de objetivos temporais sem pré definição do que se precisa enxergar. Limpar é morrer homem e renascer filho de Deus. É permitir a ação transformadora de Deus, refazendo a vida com dolorida morte. Não é fácil abrir mão de nossa humanidade. Quebrar padrões historicamente conhecidos e saltar sem pára-quedas numa experiência transcendente de fé. É caminhar no deserto, colhendo o maná, sem saudades das seguranças egípcias. É neste momento, que olhando para aquele homem de Nazaré, percebemos além de sua figura humana, a gloria majestosa de Deus.

O mundo religioso é ambiente para o desenvolvimento de uma grande fé. Mas não é bastante para garantir a comunhão com Deus. A comunhão é privilégio individual dos limpos, dos bem aventurados.

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