Mateus: 5, 7
Ao longo da História da Igreja Cristã esse tema tem recebido a atenção de muitos pensadores. É um tema difícil, embora aparentemente óbvio, pois trata-se de algo muito conhecido, muito comum, muito humano. Misericórdia, compaixão... pena... . Sob o ponto de vista da observação prática, a misericórdia tem sido exercida de maneira equivocada. Confundida com uma espécie de cumplicidade com a desgraça alheia. A valorização dos males, das desventuras, dos azares e das tragédias comovem, entorpecem, nos envolvem gerando um ambiente negativo na comunhão humana.
Nietzsche dizia que a misericórdia era um instinto depressivo e contagioso, debilitante de outros instintos que querem conservar e aumentar o valor da vida; é uma espécie de multiplicador da miséria humana, por isso é um dos instrumentos principais da decadência do homem.
O homem tem a capacidade de metabolizar miséria e verter-se em piedosas lágrimas que irrigam o solo do desalento germinando a piedade.
A misericórdia, dita por Cristo, não é um ato gerado por emoção, por pena. Antes é uma atitude intencional, pensada. Como uma bondade consciente, que não se engana em seu objetivo e natureza. Dizemo-nos misericordiosos quando sacrificamos um animal muito querido cuja vida seria um agonizante sofrimento. Misericórdia não é cumplicidade com a miséria e a desgraça do homem e muito menos o sentimento de pena de alguém por qualquer razão. Misericórdia é compromisso com o homem, independente de sua situação. Não é um sentimento, mas uma ação que resolve. Que restaura a dignidade valoriza a vida aumentando o prazer e a felicidade.
A misericórdia é um comprometimento interior que se cumpre dia a dia diante da vida dos homens que dele precisa. É compromisso de vida, de fé. Deus foi misericordioso conosco no "Jardim", decretando, antes que tudo acontecesse, morte para o conhecimento do "mal": uma escolha que seria feita pelo homem. De imediato inicia-se o processo de resgate, de regeneração e Deus age intensamente para oferecer ao homem uma nova oportunidade de escolha. A misericórdia não tem compromisso com a caridade, nem com a impunidade, pois a vida é um permanente desafio de seleções, de escolhas. E aos perdedores, as desgraças consequentes da má escolha. Atuar na recuperação do "desgraçado" é um ato de misericórdia, de lealdade com a vida, de lealdade a Deus e a sua criação.
Bem aventurado os misericordiosos, que não são enganados pelas histórias tristes da vida, mas atuam com firmeza na valorização das virtudes humanas, na recuperação do que foi perdido, e em especial, na anunciação do Cristo salvador e regenerador de toda a vida, eles alcançarão a misericórdia de Deus, para sempre.
Nenhum comentário:
Postar um comentário