sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Explicando o Natal


Lucas: 2, 25-34; 40.


Explicar o Natal em uma página literária não é difícil. Mas existem páginas muito difíceis de explicar o Natal. Falo das páginas da vida. Vidas que falam de morte, sofrimento, prisão, violência, infelicidade. Gente incapacitada, cujos movimentos se foram e seus corpos largados em leitos de hospital dependem de cuidados especializados para sobreviver. Gente doente, em fase terminal, agonizantes em dor e desesperança. Gente que mata para cheirar algumas gramas de cocaína. Gente que faz a guerra para sustentar-se no poder. Gente sem terra para plantar, sem teto para morar, sem emprego para se sustentar. Da doença à miséria, páginas difíceis de explicar a redenção, a festa divino-humana, o Natal.

Ah, menino Jesus! Nasceste num inferno? És produto da imaginação religiosa de um povo carente de esperança? Ou talvez só alguns consigam festejar-te? Aqueles sadios, bem empregados, de famílias estruturadas, bons degustadores de vinhos e perus.

Não podem as páginas da vida explicar nem a própria vida. A vida que conhecemos inicia uma história de terror e desventuras a cada página, em cada capítulo. Não conseguiríamos explicar o Natal através de uma página de vida. Ao contrario, explicamos a vida através do Natal. Pois um menino nos nasceu. E com Ele nasceu o desconhecido, o não experimentado. A vida! A possibilidade de felicidade independente de pão, de terra, de teto, de saúde física, de fartura ou miséria. Não conhecemos vida sem os elementos físicos de nosso planeta, ou sem os elementos psicológicos de nossa estrutura humana. O milagre do Natal é o milagre da vida. É quebra de padrão, é transcendência material, física, psíquica e social. É Deus quem revela, mostra e concede o que não conhecemos: a vida.

As tragédias deste mundo são deste mundo. Contam as histórias de um mundo órfão por opção. Tristes e deprimentes histórias. Não falam de vida, falam de morte.

E neste mundo virado ao avesso, nasce um menino. Imanência divina que revela e concede a vida, realiza a esperança e planta a felicidade, capacitando-nos à transcendência física e temporal. E a partir do menino da vida, dessa nova realidade, renascemos, crescemos e nos fortalecemos, enchendo-nos de sabedoria; e a graça de Deus é presença permanente sobre nós.

Para todos feliz Natal e muitas alegrias em 2013.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O SAL DA TERRA E A LUZ DO MUNDO


Mateus: 5, 13-16

De modo geral, pensamos nas propriedades do sal e na sua utilidade para fazer um paralelo com as qualidades do professo cristão. Contudo, proponho uma reflexão em outro caminho. Penso que Jesus ilustrou seu ensinamento com uma substância preciosa nos tempos antigos. O sal tinha um valor maior percebido na antiguidade do que nos tempos atuais, embora suas propriedades continuem sendo as mesmas.

Se considerarmos que o sal está presente nos oceanos, fonte de vida e de sustento de vida para todo o ecossistema do planeta, que o sal é um dos elementos essenciais na composição química dos seres vivos, e seu consumo é indispensável em porções adequadas, e seu uso se dá tanto pelos animais e vegetais quanto pelos homens. Então verificamos que o sal é um dos elementos químicos que caracterizam nosso mundo, nosso planeta, nossa vida.

Somos sal. Somos um produto bioquímico deste mundo, um composto químico, no qual Deus, com seu sopro, criou uma alma capaz de transcender a matéria e o mundo, para esperar no infinito e no imaterial o nosso desejo eterno de vida e amor na companhia do criador.

E a alma, que brilha como luz do farol de Deus, indica o princípio e o destino da vida. Sal e luz, vida e destino. Luz em nós, Emanuel, Deus conosco. Em cada corpo, em cada alma o sal que nos define materialmente como humanos e a luz que distingue nossa alma desafiando as estruturas físicas, iluminando a eternidade, lugar maior das possibilidades.

A matéria é a nossa prisão. Somos sal, humanidade que não se perde, realidade que não pode ser ignorada, não permitindo abster-nos dos desafios e combates desta vida, antes, exigindo vencê-los para que não nos tornemos insípidos e pisoteados por esta geração salgada e sem luz.

Somos como um cristal de sal que reluz ao sol. Que testifica a grandeza do ato criador e todas as limitações da materialidade rebelada, mas testemunha na luz do espírito o desejo maior de Deus.

sábado, 10 de março de 2012

BEM AVENTURADOS OS INJURIADOS II


Mateus: 5, 11-12


Das profundezas do abismo, reino das trevas, de espaços pequenos, incômodos, perigosos, inseguros, contemplo a imensidão do cosmo. E os brilhos de milhares de estrelas festejam a Tua presença, Senhor meu Deus. Sinto uma brisa refrescante e perfumada. E o sol, que de lá não se vê, resplandece aquecendo-me o corpo e a alma. Posso sentir a espuma do mar esparramando-se em branca e suave areia, num convite às brincadeiras de verão, que não existem nos abismos, sérios, frios e escuros. Posso ver cores, flores, frutos e sentar-me à mesa para saborear pão e vinho fartamente servido.

A vida nos abismos é dependente de um pragmatismo existencial insuportável. Sem cheiros, sem brilhos, sem calor, sem pão e sem vinho. Cegos, em luta pela sobrevivência, esforços e suores, gladiadores vorazes lutando pela existência. Lugar das desconfianças, inseguranças e insatisfações, onde não conquistar significa não ter e, não ganhar, significa perder.

Das profundezas do abismo, reino das trevas, eu vivo a nostalgia do porvir, a esperança do passado e a plenitude do presente. E do confronto das experiências de vida nasce o conflito, a incompreensão e a agressão. No mundo das profundezas não existe lugar para a poesia, para a contemplação, para o belo, para o eterno. O mundo das profundezas é o lugar das articulações, das guerras, das conquistas, lugar de ações enérgicas e eficazes. Onde o belo é derrotado pelo prático, a poesia pelos gritos de ordem, a contemplação pela ação e a eternidade pela morte.

E os conflitos são inevitáveis. As perseguições fazem parte da estratégia de defesa de valores questionados pela fé; esperança e amor.

Bem aventurados os injuriados e perseguidos pela loucura da fé, pela insanidade de suas esperanças, pela incredulidade nos valores deste mundo, pelo imperdoável amor aos seus algozes. Regozijai-vos e exultai, porque são grandes as vitórias eternas, e a vida será compartilhada da presença do Senhor Deus, nosso terno e eterno Deus.

BEM AVENTURADOS OS INJURIADOS I


Mateus: 5, 11-12


Houve um tempo em que confessar-se cristão protestante era um ato perigoso que colocava em risco a própria vida. Em vários momentos da história registramos a intolerância e muitas perseguições aos cristãos. A reforma do século XVI ampliou e diversificou o foco e o clima das perseguições e o autoritarismo religioso. Até poucos anos atrás registrava-se em nosso Continente verdadeiros cenários de guerra entre católicos e protestantes, vistos frequentemente, em especial, na região nordeste do Brasil. Nos dias atuais o Ocidente vive um tempo de liberdade religiosa nunca visto, e a liberdade de culto integra a maioria dos textos constitucionais, como, por exemplo, em nosso país.

A perseguição a Cristo, no entanto, jamais deixou de existir. Na verdade estamos falando do primeiro conflito do homem contra Deus. Expulso do Éden, primeiro local de campo de batalha e do confronto direto do homem a Deus. A humanidade e em especial as religiões, combatem, desde então, a Palavra de Deus, seus intérpretes e seus profetas. A regulamentação doutrinal, moral e comportamental, a sistematização da teologia, da liturgia e a formulação dos dogmas, fazem do homem gestores das verdades compreendidas acerca de Deus. Não sendo absoluta, a gestão humana falha e induz ao erro muitos fiéis, enquanto novos códigos surgem, ou são contextualizados, na medida em que evolui a capacidade de compreensão da humanidade.

Ao definirmos intransigentemente um modelo de gestão divina, militarizamos a Santíssima Trindade com objetivos, estratégia e poderio bélico capaz de defender-se e atacar as nossas “alucinações”, inimigas da humanidade e de Deus. É neste contexto que surgem as injúrias dos religiosos contra os santos de Deus, os pacificadores, que se tornam perseguidos por religiosos guerreiros, apologistas das verdades religiosas, odiosos da liberdade, do prazer, da felicidade, do amor, da piedade, da tolerância e da eternidade.

O preço da fé é a convivência com as bobagens proferidas pelas serpentes da vida religiosa, suas bocas venenosas e a crueldade com que atacam e matam os santos de Deus. Bem aventurados os injuriados, grande será a recompensa nos céus.

BEM AVENTURADOS OS PERSEGUIDOS


Mateus: 5, 10


O Estado e a religião são velhos companheiros na história da humanidade. Parceiros na defesa das mais legítimas ações sociais e cúmplices nos mais espúrios interesses econômicos. A história é testemunha desta associação, e a Igreja Cristã não é exceção. E, em nome da vontade de Deus, a Igreja age para fazer valer os interesses dos mais diversos grupos do poder político. E os livros sagrados, quando não funcionam como Constituição, influenciam todos os poderes constitucionais, em especial com relação à cidadania, aos direitos e deveres do cidadão.

Foi fundamentado em um código religioso que Jesus foi condenado à morte, foi com a complacência da Igreja que seis milhões de judeus foram exterminados, foi a Igreja Presbiteriana do Brasil quem condenou ao despojamento do Sagrado Ministério muitos pastores, numa caçada às bruxas ocorrida no período da ditadura militar, após o golpe de 1964. Sem falar naqueles que foram denunciados às forças armadas, injustamente, para serem punidos, presos e torturados, acusados de comunistas, sem provas, sem julgamento, sem defesa, por interesses políticos e econômicos, em nome de Deus e da boa prática Presbiteriana.

O reino dos céus não é propriedade das religiões e nem dos homens que vivem sob o jugo das leis religiosas e de suas nações. Como também não é propriedade dos anarquistas, revolucionários, revoltosos ou insubordinados à ordem social.

O reino dos céus é o habitar daqueles que se fazem morada do Espírito de Deus, que olham o mundo grávidos da bondade divina, que falam do Deus que quer amar-nos intensa e eternamente, das possibilidades transcendentes da vida sobre a morte, dos limites do tempo e da eternidade. Ah!... Se soubéssemos que somos o desejo de Deus. O homem de Deus denuncia, por seu testemunho, por sua palavra e por sua vida, as tolas e finitas propostas humanas, sua ineficácia, seus objetivos, valores e métodos, as injustiças sociais presente em todas as sociedades do mundo, promovendo a paz, inalcançável pela iniciativa humana.

Bem aventurado os perseguidos da impiedosa e interesseira justiça humana, bem aventurados aqueles que não se confrontam com Deus, mas antes, se tornam cheios de sua divindade em Jesus Cristo, pois deles é o reino dos céus.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

BEM AVENTURADOS OS PACIFICADORES


Mateus: 5, 9

“... e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem.” Cantaram as multidões de anjos na festa do nascimento do menino Deus. Paz... — palavra simples, significado de fácil e universal compreensão. Utopia religiosa para o mundo que só evolui com a guerra e as grandes questões econômicas-diplomatas. Mundo em que a morte nutre a vida e a guerra nutre a paz. A alma humana precisa estar em conflito para encontrar a paz. Fala-se da miséria, da fome, do domínio político e econômico, da escravidão, das crises e interesses econômicos e sociais, como se fossem um conjunto de fatores externos que plasmassem na alma humana o conflito, a insegurança, os temores, o ódio e a revolta, geradores de guerras pessoais e sociais.

Os conflitos, em todos os níveis, desde o indivíduo, a família e os grupos sociais sempre existirão. Os códigos genéticos e o meio ambiente de cada ser humano geram emoções e reações incontroláveis e inevitáveis. Mesmo em nome de Deus o homem — através das religiões — tem matado, destruído o meio ambiente, julgado injustamente o mundo e as pessoas, exigindo lealdade escrava, submetendo os mais fracos e guerreando com os mais fortes, apregoando uma paz alienante, lasciva, lúbrica, torpe, interesseira e cruel.

A paz não é ausência de guerras ou conflitos internos e externos. A paz é um estado de espírito em consequência da descoberta e da consumação do ser, do porvir, das possibilidades existenciais eternas. É a descoberta da vida que não acaba. Ato regenerador divino, que salva a vida da morte revelando a verdadeira paz, a verdadeira segurança, os verdadeiros objetivos da vida.

Os pacificadores são os filhos de Deus. Natureza humana e natureza divina, como em Maria, os pacificadores, utilizando um neologismo, “gestam” o Espírito de Deus em suas almas.  É como se estivessem grávidos do Espírito e vivessem a experiência da eternidade ainda neste nosso “mundinho”. Experimento de uma existência não conhecida, de um sentimento transbordante que pervade todo o ser e, de maneira incontrolável, tenta alcançar seus semelhantes. Os pacificadores são anunciantes incondicionais, promotores da paz, testemunhas de um novo mundo, de uma nova geração, de uma nova possibilidade de vida. Bem aventurados os pacificadores, pois estão em paz e serão conhecidos como filhos de Deus.