domingo, 27 de fevereiro de 2011

Introdução à Tentação de Cristo

Lucas: 4, 1-13

Os teólogos atribuem à palavra tentação um único sentido. Coisa feia, ação do diabo, fraqueza humana, coisas espirituais. Os mesmos teólogos utilizam palavras semelhantes em significado: sedução e provação, para sistematizar conceitos passíveis de discussão sobre o comportamento do homem, de Deus e do diabo. Resolvi pensar sobre o tema e descobri que as palavras, na teologia sistemática falam de dogmas diferentes, porém, são de difícil distinção em seus sentidos. Na verdade, os próprios religiosos utilizam informalmente a palavra tentação para exprimir vontades e impulsos saborosos.

Não há coisa mais gostosa que fazer coisas diferentes. Um passeio em horário de trabalho, o ar puro, a brisa do mar, a cabeça oca de problemas burocráticos... quem não gosta?   E um belo copo de chope num dia quente, bem amarelo e borbulhante, em constante erupção de suave e gelada espuma, branquíssima, a escorrer pelo copo e a marcar nossos lábios com o selo do prazer e da satisfação?  O verão traz chuvas fortes quase sempre nas tardes incandescentes. E chuva desconfortável, na maioria das vezes, torna-se objeto de tentação. Banho que refresca, que encharca, que liberta os sentimentos mais profundos da alma.  É impossível tomar banho de chuva sem sorrir, gargalhar e gritar. Felicidade que aparece quando nos damos ao direito de aceitar a tentação das tardes de verão.

A vida é rica em oportunidades de prazer. Ninguém é tentado a ficar pobre, doente, infeliz, sem teto. Ninguém é tentado a ficar com sede, com fome, sujo e vestido com farrapos. Os teólogos dizem que isto é provação. Porém, o poder e os prazeres são nossa vocação e as tentações, nossos desejos mais naturais e imediatos. Reprimir o desejo é negar uma vocação, é atentar contra a natureza humana, é doença de infelicidade e morte. No entanto, o desejo deve ser racionalmente limitado, e, na verdade, ele o é nas relações éticas, fundamento vital para o convívio social. Define-se como uma pessoa normal aquela que não reprime o desejo, mas regula sua satisfação ao limite da conveniência ética.

Desmantelar o conceito equivocado sobre poder, prazer, e desejo, é questão fundamental para entender a tentação de Jesus. Sem conceber antecipadamente idéias sobre certo e errado, Deus e diabo, força e fraqueza. O objeto da tentação não é necessariamente bom ou ruim.  A tentação é a manifestação da natureza humana para o atendimento de seus desejos, muitas vezes legítimos e saudáveis e, normalmente, eticamente corretos. Desejamos aquilo que não temos e gostaríamos de ter, por isso, o querer e a necessidade falam daquilo que somos e pensamos; de nossa ótica sobre a vida e sobre nós mesmos. De nossa história de vida, nossas fragilidades e inseguranças, nossa estrutura pessoal.

Neste ponto, passamos do genérico para o pessoal. Nossos desejos revelam aquilo que somos. Nossos sonhos revelam o que desejamos ser. E a sociedade é composta por individualidades não saciadas, tentadas, provadas e seduzidas a conquistar o direito do ideário do ser.

Os Deuses e Demônios

 Lucas: 4, 1-13.

Tenho a convicção de que a narrativa do Éden não fala somente de desobediência. O homem buscou a soberania sobre Deus na intenção de adquirir o conhecimento maior sobre o bem e o mal. Expulso do “jardim”, ele é aprisionado à matéria e ao tempo, tendo sua existência limitada à morte.

E o mau, que não existe em Deus e nem por Deus, passou a existir no homem e pelo homem. E a história humana é a história da prevalecente maldade e destruição. Até a Deus conferimos exércitos celestiais que matam e dominam nossos inimigos. A vida humana é uma grande disputa egocêntrica pela sobrevivência, pelo ter, pelo saber, pelo poder. Somos deuses endemoniados. Agimos e pensamos a partir de nós mesmos, de nosso discernimento sobre o certo e o errado, julgamo-nos e abençoamos ou amaldiçoamos a vida e todas as criaturas existentes, sem competência alguma. Por isso a expulsão do “jardim”. Ao concebermos o mal perdemos a qualificação necessária ao desfrute da eternidade, da presença de Deus.

E nossos desejos, que deveriam ser de amor, expressam a dura realidade de nós mesmos. Nossos deuses e demônios falam. Habitam as profundezas de nossa alma como uma doença sem cura, sem remédio e, na maioria das vezes, sem diagnóstico. Deuses desconhecidos da razão, demônios anônimos em nossa identidade. Vida que passa, humanos orbitando humanos, sem destino, vidas cegas, capazes de só enxergarem matéria.

A tentação é o conflito de nossos deuses e demônios. É o conflito dos desejos mais íntimos de nossa alma. É a possibilidade de escolha. É a manifestação do “poder” humano “conquistado” no Éden, que decide o destino da vida sob a perspectiva escolhida.

Felizmente o homem e a vida não se resumem ao pós Éden, aos deuses e demônios de nossas almas. E a oportunidade de sair da prisão sempre existiu pela graça, misericórdia, vários outros adjetivos, mas principalmente pelo amor de Deus. E pela conversão, que é a experiência de transcender à dura realidade da vida pós Éden, de transcender à matéria e seus valores, é que nos libertamos de nossos deuses e demônios.

Conversão, dádiva Divina, transcendência à eternidade, retorno ao lugar santo, à manjedoura primeira onde, no Seu infinito amor, Deus nos oferece fartura de vinho e pão, remédio eficaz contra a indigestão provocada pelo fruto proibido. Comunhão santa, sem demônios nem deuses, mas na presença permanente do Deus do amor e da vida eterna.

A Tentação de Jesus; O Desejo Existencial


Lucas: 4, 1- 4.

Jesus teve fome. Durante quarenta dias jejuou. A fome prolongada não é um ato de purificação, é liturgia de enfraquecimento, de desnutrição, de perigo existencial, geradora de carências, lugar onde aflora o desejo, onde nascem os conflitos. E se no homem Jesus existe o desejo de saciar a fome, em Deus Jesus existe o desejo da oferta de nutrição. Mas, enquanto homem, Jesus é tentado a transformar matéria inorgânica em matéria orgânica. Pedras em pães, alimento capaz de suprir a necessidade vital. Necessidade de se manter vivo a qualquer preço, por ação direta e objetiva. Instinto de preservação da carne. Como os homens, que vivem para garantir o sustento material de sua carcaça entrelaçada por complexa rede de neurônios, mas também algo que ele não conhece bem, mas chama de existência.

O desejo de sobreviver cega e aleija o domínio sobre a razão. E as possibilidades não são vistas corretamente. O desejo existencial provoca uma convulsão na alma e no corpo, distorcendo as prioridades e os objetivos da vida, mobilizando toda a capacidade do ser no seu atendimento. É uma força instintiva, feroz, irracional e incontrolável que provoca atos urgentes e desesperados.

É motivado pela necessidade existencial, depois de longos períodos de jejum, que os homens transformam pedras em pães. Procuram qualquer solução para sustentar a vida não se importando com coisa alguma. E as pedras têm que virar pães de qualquer jeito, a qualquer preço. A nossa história é a história da morte provocada pelos urgentes atos supostamente necessários à manutenção da vida. Percebemos claramente, no início do terceiro milênio após o tempo de Jesus, o caos do nosso planeta. Há destruição em todos os elementos necessários à preservação da vida no planeta, por atos que transformam pedras em pães. Alquimia do desespero, coisa de bicho, de quem está engasgado, sufocado, por um fruto indigesto de um certo jardim.

O Deus Jesus, enquanto homem Jesus, teria de sentir essa angústia existencial. O perigo de morrer em meio ao desespero da fome, símbolo da necessidade mais vital de nosso corpo. Sentindo o rondar da morte, do deixar de existir, a tentação de soluções humanas lhe vieram sob forma de pedras. Mas Jesus foi homem sustentado na palavra divina. O verbo de Deus que se faz carne, que é capaz de transcender a loucura humana, discernir as pedras e enxergar além das fronteiras das possibilidades existenciais uma solução eterna, os bons frutos que não matam e sustentam a vida. Frutos que falam da verdadeira vocação humana. Dos primeiros desejos, onde a eternidade lhe era por jardim e o verbo divino por companhia sustentadora e edificadora.

Não só de pão viverá o homem. Não qualquer homem, somente aqueles em que o verbo divino se faz carne, e na encarnação do verbo divino a experiência da transcendência libertadora das limitações mesquinhas da natureza humana. E o homem Jesus, na providência de sua divindade, nos fala do desejo maior de Deus; salvar da pequenez, das limitações e da morte sua criatura amada.

A Tentação de Jesus; O Desejo dos Demônios


Lucas: 4, 5-8.

A existência humana está comprometida e limitada a sua materialidade, ao sistema solar, ao universo material e em especial ao planeta Terra e seus valores. A vida é gerada permanentemente em todo o planeta, renovando-se a cada momento, evoluindo espécies, adaptando-se às circunstâncias e, particularmente no homem, percebemos um desenvolvimento intelectual, científico e social. Entretanto, a dimensão de valores humanos permanece fundamentalmente inalterada. A estrutura natural do ser humano está intimamente ligada com o poder manifestado pelo ter. E é pela posse que distinguimos o homem de outras criaturas de nosso planeta. Não basta ocupar um território e demarcar sua presença; é necessário possuir tudo o que se usa e tudo o que se deseja.

Ainda hoje vivenciamos nações que por sua grandeza econômica, política e bélica dominam o mundo e impõem seus desejos a países supostamente independentes. Nos tempos de Jesus não era diferente. Grandes reinos se expandiam a custa da dominação de povos de inferior capacidade de confronto. Os demônios de nossa alma nutrem-se das possibilidades de conquista. Manifestam o desejo de posse ilimitada, de domínio sobre seu semelhante, seus bens e seus valores. O que é a globalização senão a eclosão de nossos demônios ultrapassando as fronteiras nacionais do capital em busca de novas conquistas, submetendo nações a uma única regra para sobreviver?

Nossos demônios nos falam a todo instante das nossas possibilidades de autoridade sobre todas as coisas de nosso mundo. Incitam-na de forma irresistível nosso desejo, marca inequívoca de nossa pequenez, de nosso estado temporal, de nossa incapacidade de transcender as barreiras de nossa complexa realidade. E cultuamos nossas possibilidades, nossas conquistas, nos prostrando diante dos poderes alcançados e adoramos nossos demônios insaciáveis de desejos.

Mas Jesus, verbo encarnado, repele sua índole humana pela palavra divina numa clara demonstração do que é a transcendência sobre os efeitos do desejo humano. A verdadeira glória não está ao alcance da visão humana, está na eternidade, naquele que é eterno, em Deus. Que nos oferece vida, único patrimônio permanente que deve ser desejado. Enxergar a glória de Deus requer conversão, não adesão, mas alteração total e progressiva da nossa natureza. Requer o rompimento com nossos valores, mas principalmente a aceitação da graça transformadora de Deus. É aventura de fé, de certezas subjetivas, improváveis pela razão, mas concretamente sentidas na experiência da convivência com Deus.

Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele darás culto. Eternamente desde agora.

A Tentação de Jesus; O Desejo dos Deuses


 Lucas: 4, 9-12.

A história da humanidade registra desde os tempos mais remotos que os homens demonstraram grande capacidade no desenvolvimento e manipulação dos elementos da natureza, criando objetos e aparelhos que alteravam o modo e a qualidade da vida, ainda primitiva. Da mesma forma a percepção de forças da natureza originaram processos mentais de transferência energética e de autoestímulo servindo de base para rituais de cura, de proteção, de garantia de fartura e outros mais.

Falamos superficialmente da ciência e da religião como elementos da natureza humana. Desde os primórdios de nossa história percebemos o incontrolável desejo do homem em conhecer, desvendar e utilizar as forças e mistérios da natureza, suas leis físicas, sua química e energia. São nossos deuses que nos aguçam o desejo do conhecimento e domínio sobre todas as coisas do nosso mundo. Nossos deuses nos incitam a outra forma de poder, o poder de vencer os limites biológicos, físicos, químicos, psíquicos e mentais do universo e de si mesmo.

A evolução e o desenvolvimento são naturais e bons. O conforto e as possibilidades geradas pelo homem melhoram a vida e aumentam as possibilidades de prazer. A questão abordada é mais profunda. Falamos de valores existenciais, de desejo de poder e não de capacidades a serem desenvolvidas para a melhoria da vida. Falamos de desafios a serem vencidos sem propósitos que não sejam apenas a manifestação de nossos deuses, que nos lançam ao desenvolvimento de tecnologias e rituais de morte e destruição por autoafirmação de domínio e poder. Qual seria o motivo para que Jesus se atirasse do pináculo do templo evocando a presença de anjos para protegê-lo? O mesmo Jesus que andou sobre o mar, que multiplicou pães, que ressuscitou Lázaro. Nossos deuses são traiçoeiros. Colocam-nos diante de desafios permanentes, exigindo uma ação de demonstração de poder e vaidade, de autoafirmação humana. E nossa vida é marcada por desejos de milagres, de realizações imediatistas que atendem somente a um confronto de possibilidades e domínio com Deus. Foi assim no Éden, é assim ainda hoje.

Aos deuses de nosso ser, Jesus, verbo encarnado, palavra transcendente de Deus, refuga a tentação repreendendo o desejo equivocado de sua natureza humana afirmando a imbecilidade de tentação a Deus. Em Jesus encontramos a consciência divina em plena harmonia com sua natureza humana. Sua existência humana não é anulada, por isso, ele é tentado. Mas sua essência divina é traço predominante na origem e manifestação de seus desejos de vida. E a oferta divina a toda a humanidade é, em Jesus Cristo, sem deixar de ser o que somos, acrescentar a essência daquilo que fomos e que jamais conseguiríamos reaver por nós mesmos, através da verdadeira conversão que sepulta, pela predominância da palavra encarnada, definitivamente nossos deuses e demônios existenciais.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

VIDA RELIGIOSA


Três são os grandes obstáculos à vida religiosa. O primeiro, por demais conhecido, é o materialismo. Como o nome indica, é um sistema unitário cuja ênfase está na matéria como realidade única. Para o materialismo o mundo espiritual é fantasia e não existe Deus, nem alma, nem vida além. O que existe é esta vida, e só. É a filosofia do rico insensato da parábola de Jesus.
O segundo é o formalismo. É a orientação meticulosa, burocrática, teorista. É a tecnocracia da religião que a reduz à lei, a regras, estatísticas, relatórios.   Tudo muito bem arrumadinho na aparência, mas no interior instala-se a desordem. No formalismo prevalece a autoridade, a cúpula, a lei como expressão intocável de vida, que na realidade é morte.
O terceiro é o pietismo. É terrível porque reduz a religião a refúgio. É a deformação da fé. Em vez de gerar vida alegre, comunicativa e abundante, gera a depressão, o moralismo, a inibição, os negativismos. No pietismo a religião adoece e se faz um louvor sofrido e sofredor em vez de ser um louvor alegre e esperançoso. A esperança se faz gemida. A prece se faz mendicância. É um tipo de caricatura da verdadeira vida religiosa.
(Texto extraído do livro da "Emerência do Rev. Zaqueu Ribeiro", 1988)