Lucas: 4, 1-13
Os teólogos atribuem à palavra tentação um único sentido. Coisa feia, ação do diabo, fraqueza humana, coisas espirituais. Os mesmos teólogos utilizam palavras semelhantes em significado: sedução e provação, para sistematizar conceitos passíveis de discussão sobre o comportamento do homem, de Deus e do diabo. Resolvi pensar sobre o tema e descobri que as palavras, na teologia sistemática falam de dogmas diferentes, porém, são de difícil distinção em seus sentidos. Na verdade, os próprios religiosos utilizam informalmente a palavra tentação para exprimir vontades e impulsos saborosos.
Não há coisa mais gostosa que fazer coisas diferentes. Um passeio em horário de trabalho, o ar puro, a brisa do mar, a cabeça oca de problemas burocráticos... quem não gosta? E um belo copo de chope num dia quente, bem amarelo e borbulhante, em constante erupção de suave e gelada espuma, branquíssima, a escorrer pelo copo e a marcar nossos lábios com o selo do prazer e da satisfação? O verão traz chuvas fortes quase sempre nas tardes incandescentes. E chuva desconfortável, na maioria das vezes, torna-se objeto de tentação. Banho que refresca, que encharca, que liberta os sentimentos mais profundos da alma. É impossível tomar banho de chuva sem sorrir, gargalhar e gritar. Felicidade que aparece quando nos damos ao direito de aceitar a tentação das tardes de verão.
A vida é rica em oportunidades de prazer. Ninguém é tentado a ficar pobre, doente, infeliz, sem teto. Ninguém é tentado a ficar com sede, com fome, sujo e vestido com farrapos. Os teólogos dizem que isto é provação. Porém, o poder e os prazeres são nossa vocação e as tentações, nossos desejos mais naturais e imediatos. Reprimir o desejo é negar uma vocação, é atentar contra a natureza humana, é doença de infelicidade e morte. No entanto, o desejo deve ser racionalmente limitado, e, na verdade, ele o é nas relações éticas, fundamento vital para o convívio social. Define-se como uma pessoa normal aquela que não reprime o desejo, mas regula sua satisfação ao limite da conveniência ética.
Desmantelar o conceito equivocado sobre poder, prazer, e desejo, é questão fundamental para entender a tentação de Jesus. Sem conceber antecipadamente idéias sobre certo e errado, Deus e diabo, força e fraqueza. O objeto da tentação não é necessariamente bom ou ruim. A tentação é a manifestação da natureza humana para o atendimento de seus desejos, muitas vezes legítimos e saudáveis e, normalmente, eticamente corretos. Desejamos aquilo que não temos e gostaríamos de ter, por isso, o querer e a necessidade falam daquilo que somos e pensamos; de nossa ótica sobre a vida e sobre nós mesmos. De nossa história de vida, nossas fragilidades e inseguranças, nossa estrutura pessoal.
Neste ponto, passamos do genérico para o pessoal. Nossos desejos revelam aquilo que somos. Nossos sonhos revelam o que desejamos ser. E a sociedade é composta por individualidades não saciadas, tentadas, provadas e seduzidas a conquistar o direito do ideário do ser.