domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Tentação de Jesus; O Desejo dos Deuses


 Lucas: 4, 9-12.

A história da humanidade registra desde os tempos mais remotos que os homens demonstraram grande capacidade no desenvolvimento e manipulação dos elementos da natureza, criando objetos e aparelhos que alteravam o modo e a qualidade da vida, ainda primitiva. Da mesma forma a percepção de forças da natureza originaram processos mentais de transferência energética e de autoestímulo servindo de base para rituais de cura, de proteção, de garantia de fartura e outros mais.

Falamos superficialmente da ciência e da religião como elementos da natureza humana. Desde os primórdios de nossa história percebemos o incontrolável desejo do homem em conhecer, desvendar e utilizar as forças e mistérios da natureza, suas leis físicas, sua química e energia. São nossos deuses que nos aguçam o desejo do conhecimento e domínio sobre todas as coisas do nosso mundo. Nossos deuses nos incitam a outra forma de poder, o poder de vencer os limites biológicos, físicos, químicos, psíquicos e mentais do universo e de si mesmo.

A evolução e o desenvolvimento são naturais e bons. O conforto e as possibilidades geradas pelo homem melhoram a vida e aumentam as possibilidades de prazer. A questão abordada é mais profunda. Falamos de valores existenciais, de desejo de poder e não de capacidades a serem desenvolvidas para a melhoria da vida. Falamos de desafios a serem vencidos sem propósitos que não sejam apenas a manifestação de nossos deuses, que nos lançam ao desenvolvimento de tecnologias e rituais de morte e destruição por autoafirmação de domínio e poder. Qual seria o motivo para que Jesus se atirasse do pináculo do templo evocando a presença de anjos para protegê-lo? O mesmo Jesus que andou sobre o mar, que multiplicou pães, que ressuscitou Lázaro. Nossos deuses são traiçoeiros. Colocam-nos diante de desafios permanentes, exigindo uma ação de demonstração de poder e vaidade, de autoafirmação humana. E nossa vida é marcada por desejos de milagres, de realizações imediatistas que atendem somente a um confronto de possibilidades e domínio com Deus. Foi assim no Éden, é assim ainda hoje.

Aos deuses de nosso ser, Jesus, verbo encarnado, palavra transcendente de Deus, refuga a tentação repreendendo o desejo equivocado de sua natureza humana afirmando a imbecilidade de tentação a Deus. Em Jesus encontramos a consciência divina em plena harmonia com sua natureza humana. Sua existência humana não é anulada, por isso, ele é tentado. Mas sua essência divina é traço predominante na origem e manifestação de seus desejos de vida. E a oferta divina a toda a humanidade é, em Jesus Cristo, sem deixar de ser o que somos, acrescentar a essência daquilo que fomos e que jamais conseguiríamos reaver por nós mesmos, através da verdadeira conversão que sepulta, pela predominância da palavra encarnada, definitivamente nossos deuses e demônios existenciais.

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