domingo, 27 de fevereiro de 2011

A Tentação de Jesus; O Desejo Existencial


Lucas: 4, 1- 4.

Jesus teve fome. Durante quarenta dias jejuou. A fome prolongada não é um ato de purificação, é liturgia de enfraquecimento, de desnutrição, de perigo existencial, geradora de carências, lugar onde aflora o desejo, onde nascem os conflitos. E se no homem Jesus existe o desejo de saciar a fome, em Deus Jesus existe o desejo da oferta de nutrição. Mas, enquanto homem, Jesus é tentado a transformar matéria inorgânica em matéria orgânica. Pedras em pães, alimento capaz de suprir a necessidade vital. Necessidade de se manter vivo a qualquer preço, por ação direta e objetiva. Instinto de preservação da carne. Como os homens, que vivem para garantir o sustento material de sua carcaça entrelaçada por complexa rede de neurônios, mas também algo que ele não conhece bem, mas chama de existência.

O desejo de sobreviver cega e aleija o domínio sobre a razão. E as possibilidades não são vistas corretamente. O desejo existencial provoca uma convulsão na alma e no corpo, distorcendo as prioridades e os objetivos da vida, mobilizando toda a capacidade do ser no seu atendimento. É uma força instintiva, feroz, irracional e incontrolável que provoca atos urgentes e desesperados.

É motivado pela necessidade existencial, depois de longos períodos de jejum, que os homens transformam pedras em pães. Procuram qualquer solução para sustentar a vida não se importando com coisa alguma. E as pedras têm que virar pães de qualquer jeito, a qualquer preço. A nossa história é a história da morte provocada pelos urgentes atos supostamente necessários à manutenção da vida. Percebemos claramente, no início do terceiro milênio após o tempo de Jesus, o caos do nosso planeta. Há destruição em todos os elementos necessários à preservação da vida no planeta, por atos que transformam pedras em pães. Alquimia do desespero, coisa de bicho, de quem está engasgado, sufocado, por um fruto indigesto de um certo jardim.

O Deus Jesus, enquanto homem Jesus, teria de sentir essa angústia existencial. O perigo de morrer em meio ao desespero da fome, símbolo da necessidade mais vital de nosso corpo. Sentindo o rondar da morte, do deixar de existir, a tentação de soluções humanas lhe vieram sob forma de pedras. Mas Jesus foi homem sustentado na palavra divina. O verbo de Deus que se faz carne, que é capaz de transcender a loucura humana, discernir as pedras e enxergar além das fronteiras das possibilidades existenciais uma solução eterna, os bons frutos que não matam e sustentam a vida. Frutos que falam da verdadeira vocação humana. Dos primeiros desejos, onde a eternidade lhe era por jardim e o verbo divino por companhia sustentadora e edificadora.

Não só de pão viverá o homem. Não qualquer homem, somente aqueles em que o verbo divino se faz carne, e na encarnação do verbo divino a experiência da transcendência libertadora das limitações mesquinhas da natureza humana. E o homem Jesus, na providência de sua divindade, nos fala do desejo maior de Deus; salvar da pequenez, das limitações e da morte sua criatura amada.

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