Lucas: 4, 1-13.
Tenho a convicção de que a narrativa do Éden não fala somente de desobediência. O homem buscou a soberania sobre Deus na intenção de adquirir o conhecimento maior sobre o bem e o mal. Expulso do “jardim”, ele é aprisionado à matéria e ao tempo, tendo sua existência limitada à morte.
E o mau, que não existe em Deus e nem por Deus, passou a existir no homem e pelo homem. E a história humana é a história da prevalecente maldade e destruição. Até a Deus conferimos exércitos celestiais que matam e dominam nossos inimigos. A vida humana é uma grande disputa egocêntrica pela sobrevivência, pelo ter, pelo saber, pelo poder. Somos deuses endemoniados. Agimos e pensamos a partir de nós mesmos, de nosso discernimento sobre o certo e o errado, julgamo-nos e abençoamos ou amaldiçoamos a vida e todas as criaturas existentes, sem competência alguma. Por isso a expulsão do “jardim”. Ao concebermos o mal perdemos a qualificação necessária ao desfrute da eternidade, da presença de Deus.
E nossos desejos, que deveriam ser de amor, expressam a dura realidade de nós mesmos. Nossos deuses e demônios falam. Habitam as profundezas de nossa alma como uma doença sem cura, sem remédio e, na maioria das vezes, sem diagnóstico. Deuses desconhecidos da razão, demônios anônimos em nossa identidade. Vida que passa, humanos orbitando humanos, sem destino, vidas cegas, capazes de só enxergarem matéria.
A tentação é o conflito de nossos deuses e demônios. É o conflito dos desejos mais íntimos de nossa alma. É a possibilidade de escolha. É a manifestação do “poder” humano “conquistado” no Éden, que decide o destino da vida sob a perspectiva escolhida.
Felizmente o homem e a vida não se resumem ao pós Éden, aos deuses e demônios de nossas almas. E a oportunidade de sair da prisão sempre existiu pela graça, misericórdia, vários outros adjetivos, mas principalmente pelo amor de Deus. E pela conversão, que é a experiência de transcender à dura realidade da vida pós Éden, de transcender à matéria e seus valores, é que nos libertamos de nossos deuses e demônios.
Conversão, dádiva Divina, transcendência à eternidade, retorno ao lugar santo, à manjedoura primeira onde, no Seu infinito amor, Deus nos oferece fartura de vinho e pão, remédio eficaz contra a indigestão provocada pelo fruto proibido. Comunhão santa, sem demônios nem deuses, mas na presença permanente do Deus do amor e da vida eterna.
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