Lucas: 4, 5-8.
A existência humana está comprometida e limitada a sua materialidade, ao sistema solar, ao universo material e em especial ao planeta Terra e seus valores. A vida é gerada permanentemente em todo o planeta, renovando-se a cada momento, evoluindo espécies, adaptando-se às circunstâncias e, particularmente no homem, percebemos um desenvolvimento intelectual, científico e social. Entretanto, a dimensão de valores humanos permanece fundamentalmente inalterada. A estrutura natural do ser humano está intimamente ligada com o poder manifestado pelo ter. E é pela posse que distinguimos o homem de outras criaturas de nosso planeta. Não basta ocupar um território e demarcar sua presença; é necessário possuir tudo o que se usa e tudo o que se deseja.
Ainda hoje vivenciamos nações que por sua grandeza econômica, política e bélica dominam o mundo e impõem seus desejos a países supostamente independentes. Nos tempos de Jesus não era diferente. Grandes reinos se expandiam a custa da dominação de povos de inferior capacidade de confronto. Os demônios de nossa alma nutrem-se das possibilidades de conquista. Manifestam o desejo de posse ilimitada, de domínio sobre seu semelhante, seus bens e seus valores. O que é a globalização senão a eclosão de nossos demônios ultrapassando as fronteiras nacionais do capital em busca de novas conquistas, submetendo nações a uma única regra para sobreviver?
Nossos demônios nos falam a todo instante das nossas possibilidades de autoridade sobre todas as coisas de nosso mundo. Incitam-na de forma irresistível nosso desejo, marca inequívoca de nossa pequenez, de nosso estado temporal, de nossa incapacidade de transcender as barreiras de nossa complexa realidade. E cultuamos nossas possibilidades, nossas conquistas, nos prostrando diante dos poderes alcançados e adoramos nossos demônios insaciáveis de desejos.
Mas Jesus, verbo encarnado, repele sua índole humana pela palavra divina numa clara demonstração do que é a transcendência sobre os efeitos do desejo humano. A verdadeira glória não está ao alcance da visão humana, está na eternidade, naquele que é eterno, em Deus. Que nos oferece vida, único patrimônio permanente que deve ser desejado. Enxergar a glória de Deus requer conversão, não adesão, mas alteração total e progressiva da nossa natureza. Requer o rompimento com nossos valores, mas principalmente a aceitação da graça transformadora de Deus. É aventura de fé, de certezas subjetivas, improváveis pela razão, mas concretamente sentidas na experiência da convivência com Deus.
Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele darás culto. Eternamente desde agora.
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