quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Motivo do Natal

Evangelho de João 1, 1- 16.


E o verbo era Deus. E por Ele tudo foi feito. Conjugação harmoniosamente criadora, expansão de amor produtivo e fecundo, nos detalhes mais pequeninos a atenção cuidadosa para gerar o equilíbrio físico, biológico e químico do universo. E pelo verbo, palavra de ação, Deus a tudo criou. E o universo brotou do nada em explosão de vida e beleza, perfeito equilíbrio de astros que bailam nos céus com movimentos variados e divertidos. Dia e noite Deus criou. Estrelas cadentes enfeitam as noites enquanto cometas velozes disputam corridas intermináveis e os sóis iluminam e aquecem inúmeros planetas, espectadores e hospedeiros de incontáveis criaturas. Pelo verbo, pela palavra.

Mas a ação Divina revela, surpreendentemente, uma nova conjugação, um novo verbo, uma nova ação. “Façamos o homem”. Com as mãos, com o sopro, doação de imagem e semelhança. Desejo inequívoco de Deus, explosão eterna de amor. Criatura amada, criada para amar aquilo que foi criado, expandindo-se em amor, gerando vida que é o fruto maior do amor. Contemplar a beleza do universo criado, visitar cada estrela, cada planeta, cada céu, cada criatura, na eterna companhia de Deus.

Contudo, o desejo de Deus se fez carne e habitou um planeta temporal, com criaturas igualmente temporais, que se comem mutuamente, se mastigam, para sustentar a vida. Perdeu-se do amor, perdeu o amor, deixou de amar. Os astros se tornaram um mistério insondável, divinizados pelos primitivos, temidos pelos de maior conhecimento. O medo de deixar de existir impera na consciência humana e a razão aflorou ancorada de imbecilidade do pensamento cartesiano, determinando conceitos de ser e existir absurdos aos olhos divinos. Muita gente morre por pensar e agir diferente. Muita gente mata, rouba e destrói o próprio planeta seguindo a razão e atendendo falsas necessidades.

E é por este homem, desejo de Deus, fruto de seu amor, que o verbo se fez carne e habitou entre nós. Não, não foi para cumprir uma liturgia judaica, tão pagã como todas as que sacrificavam as criaturas de Deus a ídolos e a deuses desconhecidos. Foi para resgatar, tirar os limites a que o próprio homem se impôs. Vencer com vida a morte, nossa única criação. Retirar a âncora da razão, e nos mostrar as possibilidades primeiras. Caminhar sobre o mar, por entre os astros, não por poder, mas por expressão de amor. E habitou entre nós, para ensinar, para amar, satisfazer a saudade de seu desejo, e chamar-nos à sua companhia eterna, mesmo aqui, nesse “mundinho”.

Natal. Festa da vida, do amor. Festa de Deus oferecida à humanidade. Conjugação de verbos que a razão não conhece. A razão não estava no início. “No princípio era o Verbo”, só o Verbo, que é Deus, ilumina a vida e dá sentido ao Natal.

Wagner Winter – Reflexões de Boletim, Rio de Janeiro, 1997.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

VIDA (AINDA SOBRE OS LIMPOS DE CORAÇÃO)


Isaías 6: 1-3 / Homilia pelo Rev. Zaqueu Ribeiro

“No ano da morte do rei Uzias...”

Enquanto alguns pranteavam a perda do rei, outros comemoravam sua sucessão. Enquanto os poderes políticos e econômicos planejavam as estratégias de governabilidade e produção, muitos como nós, se angustiavam com o futuro de suas vidas. Enquanto os sacerdotes conclamavam ao povo à realização dos ofícios litúrgicos e, ao mesmo tempo, uniam-se ao poderes governativos do novo reino, havia as incertezas das mudanças duras que a vida e o tempo obrigam constantemente o homem a fazer e a viver.

“... eu vi o Senhor...”.

Se a morte do rei Uzias marcou aquele tempo do profeta, outras mortes marcam os nossos tempos. Porque a morte é capaz de marcar muito mais do que a vida. Pois o primeiro ato da vida é lutar contra a morte. A vida luta sem estratégia eficaz, onde a morte se faz presente dia a dia, até que vença e a vida sucumba em morte.

É no contexto da morte que o homem cria valores que disfarçam a impotência da vida diante da morte. A sociedade está disposta em áreas de valores tais como: governo, capital, trabalho, cultura, religião, ciência, esporte, arte, mídia e muitas outras. A humanidade se projeta por aquilo que faz e se sustenta emocionalmente por valores gestados apenas pela necessidade de ser e de existir. Até que as tragédias da vida retirem as seguranças sociais alcançadas, e instaure-se a crise que nos traz a lembrança da morte.

Este é o contexto humano. Frágil em sua essência, delicado em seu ambiente, repleto de carências e em permanente contato com a morte simbolizada por todas as derrotas sociais. É diante de tantas impressões ruins que o profeta diz: eu vi o Senhor.

Eu também O vi. E as derrotas sociais perderam o valor de morte, porque a esperança na vida ficou marcada em minha alma no momento em que eu O vi. O Senhor é a vida que venceu por mim a morte. Não testemunho do alto do poder humano, ao contrário. Mas falo na presença Daquele que me gerou vida eterna, que predestinou-me à vitória sobre a vida e sobre a morte.

No tempo da minha morte eu vi o Senhor, venci a morte e guardo a esperança da vida renovada pelo Senhor dia após dia.

BEM AVENTURADO OS LIMPOS II


Mateus: 5, 8

Assisti uma reportagem sobre uma ordem religiosa que se mantém em eterna clausura. Eles se mantêm fora do mundo, fora da sociedade, sem o menor contato com as pessoas e a vida. Nenhum prazer é desfrutável. Nenhum desejo é permitido. Por amor a Deus, vivem uma proposta de vida solitária, cujo objetivo único é estar na presença de Deus.

De modo geral todos têm uma proposta de vida para Deus. Nossas preces são prova disto. Propomos a Deus nossas idéias e vontades, nossos sonhos e esperanças, e, ao final, para garantir a eficácia da prece, incluímos um: seja feita à Tua vontade. Nossas propostas, nossas vidas. Formalismo do pecado humano, necessidade de conversar com Deus oferecendo alternativas as ações divinas. Soluções de gerente que se reúne com o presidente da empresa. Folha de parreira que sugere a solução do problema da nudez.

As multidões sempre têm propostas. A solidão é uma proposta. Conhecemos a Deus por nossas propostas e nossa fé é uma proposta de culto ao Deus que não enxergamos. Não enxergamos porque temos muitas e importantes propostas para Deus. Como enxergar um deus contido em nossas propostas? Como enxergar por detrás das folhas que cobrem nosso corpo e revestem nossa alma?

Bem aventurados os que enxergam a Deus. Eles são limpos despojados em suas propostas humanas. Não escondem seus corpos nus vestindo-se de santidade espúria e inócua. Não fazem esforços para demonstrar competência e talento diante de Deus, antes, assumem sua nudez, seu pecado, sua pequenez, sua vontade de prazeres e seu irresistível desejo de enxergar a Deus. E é esse desejo de Deus que leva a sucumbência nossas propostas tolas, inteiramente temporais, para assumirmos as propostas divinas de vida. Vida eterna. Propostas eternas.

Deus está ao alcance de todos, mas só os bens aventurados conseguem vê-lo na multidão, aqueles, limpos de coração.

BEM AVENTURADO OS LIMPOS


Mateus: 5, 8

No mundo religioso Deus é o contexto vital de todas as coisas. Outro dia, ouvindo um testemunho vocacional, percebi a insistência na afirmação de que Deus é a origem e o destino da vocação religiosa. E não cessamos de ouvir: Deus é tudo; Deus está nos vendo; Deus te pagará; Deus me orientou; Deus me livrou; Deus me abençoou; Deus me salvou. Todos falam em Deus enquanto muitos falam por Deus. Outros, contudo, se enriquecem a custa das pessoas que querem fazer de Deus um meio de solução para toda a sorte de problemas.

Apesar da grande religiosidade do povo, é dificílimo conhecer a Deus pelo que as pessoas falam e pensam. Em cada palavra um testemunho, um pensamento, um código religioso. A vontade de Deus emana da ótica humana e da confusa percepção da vida de cada fiel. Da repressão cultural às liberdades morais, cada grupo religioso pensa, ou imagina que pensa, de forma inteiramente diferente. Deus acaba se tornando o Deus do imediatismo humano.

Escondido pela pequenez do homem, propositadamente ou não, Deus observa a multidão que o procura, e diz: bem aventurados os limpos — ou puros — de coração, por que verão a Deus.

Ver a Deus é um privilégio de poucos. Somente os limpos de coração podem vê-lo. As multidões de religiosos definem a limpeza —ou pureza — de coração como uma candura da alma. Uma virtude moral, imune as tentações do pecado e dos desejos humanos. Mas o que significa, à luz da teologia bíblica, limpeza de coração? Não pode ser uma simples metáfora de ordem moral, pois a conseqüência de ver a Deus aprofunda a complexidade da causa.

A multidão não o enxergava como Deus, mas contemplava o mistério em sua aparência, como a demonstrar ao mundo a impossibilidade de distinguir a Deus com os olhos humanos. Limpo é vazio. Ausência de roteiros e códigos humanos. Inexistência de objetivos temporais sem pré definição do que se precisa enxergar. Limpar é morrer homem e renascer filho de Deus. É permitir a ação transformadora de Deus, refazendo a vida com dolorida morte. Não é fácil abrir mão de nossa humanidade. Quebrar padrões historicamente conhecidos e saltar sem pára-quedas numa experiência transcendente de fé. É caminhar no deserto, colhendo o maná, sem saudades das seguranças egípcias. É neste momento, que olhando para aquele homem de Nazaré, percebemos além de sua figura humana, a gloria majestosa de Deus.

O mundo religioso é ambiente para o desenvolvimento de uma grande fé. Mas não é bastante para garantir a comunhão com Deus. A comunhão é privilégio individual dos limpos, dos bem aventurados.

BEM AVENTURADOS OS MISERICORDIOSOS


Mateus: 5, 7

Ao longo da História da Igreja Cristã esse tema tem recebido a atenção de muitos pensadores. É um tema difícil, embora aparentemente óbvio, pois trata-se de algo muito conhecido, muito comum, muito humano. Misericórdia, compaixão... pena... .  Sob o ponto de vista da observação prática, a misericórdia tem sido exercida de maneira equivocada. Confundida com uma espécie de cumplicidade com a desgraça alheia. A valorização dos males, das desventuras, dos azares e das tragédias comovem, entorpecem, nos envolvem gerando um ambiente negativo na comunhão humana.

Nietzsche dizia que a misericórdia era um instinto depressivo e contagioso, debilitante de outros instintos que querem conservar e aumentar o valor da vida; é uma espécie de multiplicador da miséria humana, por isso é um dos instrumentos principais da decadência do homem.

O homem tem a capacidade de metabolizar miséria e verter-se em piedosas lágrimas que irrigam o solo do desalento germinando a piedade.

A misericórdia, dita por Cristo, não é um ato gerado por emoção, por pena. Antes é uma atitude intencional, pensada. Como uma bondade consciente, que não se engana em seu objetivo e natureza. Dizemo-nos misericordiosos quando sacrificamos um animal muito querido cuja vida seria um agonizante sofrimento. Misericórdia não é cumplicidade com a miséria e a desgraça do homem e muito menos o sentimento de pena de alguém por qualquer razão. Misericórdia é compromisso com o homem, independente de sua situação. Não é um sentimento, mas uma ação que resolve. Que restaura a dignidade valoriza a vida aumentando o prazer e a felicidade.

A misericórdia é um comprometimento interior que se cumpre dia a dia diante da vida dos homens que dele precisa. É compromisso de vida, de fé. Deus foi misericordioso conosco no "Jardim", decretando, antes que tudo acontecesse, morte para o conhecimento do "mal": uma escolha que seria feita pelo homem. De imediato inicia-se o processo de resgate, de regeneração e Deus age intensamente para oferecer ao homem uma nova oportunidade de escolha. A misericórdia não tem compromisso com a caridade, nem com a impunidade, pois a vida é um permanente desafio de seleções, de escolhas. E aos perdedores, as desgraças consequentes da má escolha. Atuar na recuperação do "desgraçado" é um ato de misericórdia, de lealdade com a vida, de lealdade a Deus e a sua criação.

Bem aventurado os misericordiosos, que não são enganados pelas histórias tristes da vida, mas atuam com firmeza na valorização das virtudes humanas, na recuperação do que foi perdido, e em especial, na anunciação do Cristo salvador e regenerador de toda a vida, eles alcançarão a misericórdia de Deus, para sempre.

domingo, 21 de agosto de 2011

BEM AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA


Mateus: 5, 6

Vivemos num mundo de injustiças. Nunca estamos satisfeitos com o que temos e julgamo-nos merecedores de maiores favores da vida. Julgamos nossos atos comparando-nos a outras pessoas e, de modo geral, não encontramos motivos para sermos menos beneficiados do que nossos pares. Por outro lado, os homens se agridem mutuamente, gerando danos físicos, morais e financeiros. É para arbitrar sobre essas questões que a sociedade vive sob leis, que visam garantir o direito individual e coletivo das pessoas.

O mundo clama por justiça. Das questões mais básicas da sobrevivência a polêmicas de fórum internacional ou multinacional. Justiça pelo direito de cultivo da terra, justiça pela soberania de uma nação, justiça pelo direito ao pão, justiça para a violência urbana que mata mais do que uma guerra e torna o cidadão refém do crime organizado, prisioneiro em seu espaço residencial como um animal em cativeiro. A sociedade não distingue mais a ação de policias e de bandidos e a indignação pelos desrespeitos aos valores humanos e sociais fazem eclodir do peito o clamor desesperado e muitas vezes agonizante: justiça!

Nesse momento eu paro e medito sobre as palavras de Jesus. Não pode ser desta justiça que Jesus falava; a justiça dos homens. Ele mesmo foi julgado e crucificado injustamente! Talvez a chave para compreendermos o texto não esteja na justiça, mas nas suas conseqüências: a fome e a sede. Ah! O que representam a fome e a sede? Carência de vitalidade, possibilidade de morte, desejo incontrolável de suprir a vida dos elementos que a sustenta, sintoma inequívoco de debilidade física que põe em risco o existir, que gera distúrbios no corpo e na mente. Você já dormiu com muita fome? Não é difícil lembrar-se dos sonhos de uma noite de fome. É uma necessidade tão vital que a própria sociedade garante o direito, nesses casos, de qualquer pessoa se alimentar sem nenhum preço a pagar. A fome não gera clamor e sim ação vigorosa na medida de sua necessidade.

É preciso ter fome e sede da justiça divina para recebê-la com fartura. A justiça divina, que não é cega, mas enxerga cada ser humano em sua alma em sua necessidade vital, em sua sucumbência temporal. Fome e sede da alma são desejos de Deus. De libertação do jugo do pecado e de receber a justiça que emana de Deus: vida plena, liberta e eterna. Bem aventurados os que sentem vontade de viver. Bem aventurados os que não suportam a angústia da morte e buscam a plenitude da vida na mesa farta do Senhor Jesus. Bem aventurados os que não se conformam com o juízo de Adão e buscam em Cristo o restabelecimento da justiça de Deus.

Bem aventurado o homem que se refez em Cristo. Que parte o pão e toma o vinho, saciando seu corpo dos elementos vitais, satisfazendo sua alma e se reabilitando à comunhão eterna de Deus.

BEM AVENTURADOS OS MANSOS DE ESPÍRITO


Mateus: 5, 5.

Quando era bem menino, lembro-me bem, meu pai nos levava frequentemente a passeios pelos morros da Ilha do Governador. Por matas e barrancos apreciávamos as paisagens e sentíamos os deliciosos cheiros das plantas, flores e árvores, muitas vezes misturados aos odores do mar trazidos pelo vento que nos batia à face. Um blended de odores que não sai nunca mais da memória.

Fui criado assim por meu pai, aproveitando todo o tempo possível para correr estrada e fotografar na mente as mais belas paisagens da vida, a obra de Deus. Contudo, coisa de criança, sempre me perguntava: de quem é essa terra? Se foi Deus quem a criou, como alguém se fez dono? Acho que até hoje eu não tenho resposta para as perguntas daquele menino que, percebendo a presença criadora e sustentadora de Deus diante de tamanha beleza e de tantas cores, formas, cheiros e vidas não compreendia o direito de propriedade humano.

Na maturidade pude entender que o sentimento do menino estava certo. As crianças não contaminadas pelos pensamentos dos adultos não conhecem os limites impostos pela cultura humana. São humildes em sua estrutura natural. E invadem os espaços sem constrangimentos, brincam nos campos, desvendam os mistérios das trilhas da mata como se estivessem no que é seu. Tomam posse de qualquer lugar sem cerimônia.

Quem é dono de alguma coisa? Os mansos, humildes, convertidos herdarão a Terra. Por que não existe nada humano além de uma posse temporal. E o tempo é impiedoso com os posseiros deste mundo; as varas cíveis são testemunhas das desavenças enquanto as propriedades se deterioram ou são invadidas por novos posseiros. Posse, poder, capital, tecnologia, informação, domínio de mercado. Cultura humana que o tempo não perdoa. Posse de bens, de conhecimento, de emprego, de empresa, de capital, de títulos sociais: doutores e excelências; pensamos que temos tudo e dizemos que somos aquilo que temos.

Bem aventurados os que com Deus desfrutam sem limites de toda a Terra, onde os limites humanos transcendem o conceito terreno das possibilidades e a tecnologia não impõe limite, as estratégias operadoras e empreendedoras de capital são entendidas como atividades abençoadoras de vidas e o lucro não é propriedade, mas instrumento gerador de prazer. E a maior titularidade é servo do único Senhor, Criador de todas as coisas.

Bem aventurados os humildes, os convertidos, os que choram a pequenez dos que se julgam grandes donos deste mundo, pois em sua humildade não conhecem os limites do mundo e no Espírito de Deus desfrutam de todas as possibilidades do Ser em manifesto estado de prazer e felicidade. Bem aventurados os mansos, pois somente eles herdam sem limites o mundo de Deus.

BEM AVENTURADOS OS QUE CHORAM


Mateus: 5,4.

Pessoas choram. Choram as emoções que sentem, às vezes boas, outras vezes ruins. Emoções que as atingem, causando desequilíbrio. Choram de dor provocada por uma lesão física, por falta de liberdade. Choram por ausências nessa vida, choram por fome e miséria. Pessoas choram por desilusões amorosas, por insucessos profissionais, por falta de aceitação social. Pessoas choram por todas as vitórias conquistadas, dizem que é o choro da felicidade. Os homens choram por amor e ódio simultaneamente. Seriam todos os chorosos bem aventurados?

Existe o choro motivado por uma agressão pessoal, onde é o indivíduo em particular que é agredido, magoado, ferido em sua estrutura pessoal, cuja causa pode ser consequência de ato ou postura equivocada do indivíduo ou de terceiros. A morte, por exemplo, é causa universal de pranto. Súbita, cruel, definitiva, a morte é sempre uma surpresa que traz em si a dor insuportável da separação, do fim. O choro do agredido encontra em Deus o consolo incondicional. Não existe maior conforto do que o colo divino que nos conforta com um acalanto maternal na medida de nossa dor, enxugando nossas lágrimas e mostrando-nos novas esperanças.

Mas existe um outro choro. O choro dos humildes, dos convertidos. Esse choro não é igual ao outro, pois, ao contrário do primeiro, a causa não está associada a uma agressão pessoal e sim existencial. É o choro sagrado diante da pequenez perversa do homem mesquinho e egocêntrico. É o pranto santo pelas vítimas dos valores humanos temporais. É como se Deus chorasse a destruição, a infelicidade, a ansiedade, a insaciável forma de ser de Sua criação, cuja vocação primeira fora a eternidade num plano espiritual em Sua permanente companhia. Choro de Deus através do homem pelos homens, que não se permitem acolher pela graça divina, que vive o seu curto tempo como se fosse eterno, definitivo e absoluto.

Poucos homens podem chorar o choro sagrado. Ter a capacidade de transcender, pela conversão, os limites do racionalmente correto e amar a humanidade na semelhança do amor de Deus. Ver com humildade a performance humana na arena da vida, onde as vitórias geram morte e são comemoradas até o próximo combate.

Bem aventurados os que choram o choro dos santos, sagrado. Cujo consolo é a graça de Deus manifesta na permanente comunhão. Promessa divina que se renova em cada nova conversão. Bem aventurados os humildes, que choram porque enxergam onde os olhos não vêem, sentem na alma a compaixão que os homens não sentem com a razão, vivem o amor inalcançável pelas pelejas da sobrevivência.

Bem aventurados os humildes, que são capazes de chorar. Eles amam. Amor pleno de Deus, que desvenda a eternidade, promovendo o pranto da compaixão do que é pelos que pensam ser.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

BEM AVENTURADOS OS HUMILDES DE ESPÍRITO

Mateus: 5, 1-3.

Na interpretação de Nietzsche, a humildade é simplesmente um aspecto da "moral dos escravos". É uma contestação ao pensamento religioso medieval, que apregoava a humildade como uma virtude pela qual o homem reconhece sua pequenez e seu pecado. Santo Agostinho enfatiza a via humilitalis, que é a encarnação do Verbo para redenção do homem. Santo Tomás considerava a humildade como a parte da virtude que coordena o desejo humano às coisas mais altas. Kant distingue a humildade em duas formas: moral, que é a consciência de nossa pequenez; e espúria, que é uma renúncia premeditada para a obtenção de um valor oculto.

Diante de tantos conceitos eu leio e releio o texto bíblico. Na tentativa mais profunda de entendê-lo, vejo uma multidão parada, contemplativa, sem proposta objetiva, sem provisões adequadas para ali estar, sob o jugo da escravidão romana à espera de um milagre. Humildemente a multidão aguardava. Numa análise fria, admito que a História da Igreja Cristã registre um permanente esforço das autoridades político-eclesiásticas de domínio sobre o povo, servindo-se das palavras de Cristo e pregando um modelo de virtude comportamental de submissão, interpretado por humildade. Nesse sentido a humildade é espúria, ou uma característica fundamental da escravidão.

Ainda na cena do texto, podemos ver os discípulos chegando perto de Jesus, que passou a ensiná-los. É nesse momento que entendo o que é humildade. O autorreconhecimento da pequenez e consequente incapacidade são fundamentos para a inconformidade existencial, que gera uma ação objetiva de desenvolvimento. E os discípulos foram à busca do conhecimento que lhes faltava, ainda que não tivessem plena consciência do que lhes movia para junto do Mestre. Motivados pela ação da humildade que eles iriam conhecer naquele momento, da boca do Cristo: "Bem aventurado os humildes, pois deles é o reino dos céus."

O reino dos céus é o lugar dos humildes. Porque os humildes enxergam as fragilidades dos valores culturais humanos. Eles percebem que o tempo escapa ao domínio humano: e tudo passa. A própria vida passa. Os humildes desprezam os valores morais que sustentam a sociedade humana, isso não significa um pacto pró miséria, e se lançam ao eterno num constante aprendizado de vida e fé. Os humildes não estão embaixo do monte, nem longe do Mestre, muito menos abestados na vida. A humildade não é pequena e sim grandiosa. A humildade não é alcançável intelectualmente, mas é fruto da ação redentiva de Deus e da conversão humana. Conversão que liberta e rompe as fronteiras do tempo e do espaço. E inaugura um novo tempo, uma nova vida capaz de compreender melhor  o mundo dos homens. Não existe conversão sem que se manifeste a verdadeira humildade.

Bem aventurados os convertidos, pois deles são o reino dos céus.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

SOBRE O BATISMO

Mateus: 3, 11-17.

A História da Igreja tem mostrado a importância do batismo em sua teologia e em sua liturgia ao longo dos anos. Em todas as formas religiosas cristãs o batismo se tornou sacramento de conversão, de iniciação, de mudança de vida, de testemunho de fé. O batismo tonou-se dogma teológico exceto pela sua forma, cujas discussões ainda se ouvem por aí. Aspersão, imersão, infantil, na maior idade, tem gente que chega a escrever livro tentando defender posições e teorias improváveis, quase sempre em defesa da ordem doutrinária. Pessoalmente, cheguei a defender a utilização do spray, pela praticidade e higiene, além de ser recarregável.

A igreja é assim. Perde-se na superfície dos grandes temas, preocupa-se com a forma e não digere a essência. Compreender o batismo não é difícil. Aceitá-lo sob que forma for também não é difícil. No entanto, o batismo de Jesus me aguça o pensamento. Por que Jesus permitiu-se batizar por João Batista? Teria o ato do batismo algo especial? Jesus pretenderia validar o batismo como uma marca sagrada de testemunho de fé? Ou Jesus apenas queria prestigiar o ministério de João?

Jesus de Nazaré se apresenta a João como homem. E como homem vai ao encontro da água, do arrependimento e do perdão. Água que lava, limpa e determina o fim da época da religião formal, legal, coletiva e ineficaz, dando início ao período messiânico. Como Deus no Éden moldou com suas próprias mãos Adão e lhe soprou as narinas, Jesus, homem Deus, por iniciativa própria, vai ao encontro das águas do batismo para inaugurar um novo Éden – a imagem e a semelhança de Deus – a comunhão perdida. O batismo não se sacralizou pelas águas ou pela ação de João, profeta de Deus batizante dos filhos da promessa e sim pela providência divina que inaugura o ministério de Jesus, mas para o encontro de sua missão redentiva.

O batismo como compromisso humano é ato vazio e de pequeno efeito. No batismo de Jesus percebemos mais do que o testemunho dele mesmo ou de João, mas o testemunho de Deus, que responde a necessidade humana de mudança. E o céu se abre e o Espírito de Deus promove festa de luzes e forma corpórea de testemunho que só Jesus percebe e que só um batizando poderia perceber. Deus sempre acreditou em nós. Não podemos enxergar a ação crédula de Deus, que faz festa quando um de Seus filhos o reencontra restabelecendo os vínculos da relação primeira, é impossível discernir um ato psicoemocional do verdadeiro milagre de Deus, pois na nova aliança este momento é muito íntimo, privativo do Deus Trino e de seu filho regenerado, nós.

A reflexão sobre o batismo é reflexão sobre a ação de Deus. Discutir sobre formas e condições é só para quem tem procuração divina com firma reconhecida. E como João, precisamos pregar e batizar sem distinção de pessoas, de culturas e ambientes, na certeza de que somente Deus promove a plena regeneração de seus filhos. E este ato Divino é privativo. Jamais poderemos enxergar.

terça-feira, 22 de março de 2011

A Justiça na Prece de Cristo

Mateus: 6, 9-15

Pai nosso, porque não somos filhos do acaso cósmico;

Que estás nos céus, lugar do nosso destino, casa do nosso pai, vida eterna;

Santificado sejas, pois o tempo e a matéria não te consome, és transcendente a tudo o que conhecemos, e pela tua graça, nós também;

Venha o teu reino, eternidade que nos chega em Cristo, homem novificado, justiça redentora traduzida em perdão, em conversão;

Faça-se a tua vontade, pois tu és o nosso Deus e a nossa vontade deixa de prevalecer pela tua misericórdia;

Assim na terra, sejamos felizes e fraternos;

Como nos céus, sejamos felizes, fraternos e eternos;

O pão nosso de cada dia dá-nos hoje, pois só tu nutres a vida, só tu conheces a nossa necessidade vital;

E perdoa-nos as nossas dívidas, pois não conseguimos abdicar inteiramente da nossa justiça injusta, limitada em nossa humanidade e cruel;

Assim como nós temos perdoado aos nossos devedores, capacitados pela tua misericórdia, pelo teu amor, que nos faz transcender contigo os limites da nossa justiça;

E não nos deixe cair em tentação, pois não queremos ser como tu, mas tê-lo como pai nos basta;

Mas livra-nos do mal, pois não queremos subjugar o próximo e nem sermos uma vítima da perversidade alheia;

Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre, amém.