sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Lei – Um Estilo Literário

Mateus: 5, 17-42

Dietrich Bonhoeffer escreveu: “parece ser certo que do convívio dos homens resultam leis que são mais fortes do que tudo que pretende sobrepujar-se a elas. Por esta razão não seria apenas injusto, mas também imprudente, desprezar estas leis.”.

Também da relação de Deus com os homens surgiu uma lei intransponível, que denuncia o pecado, a decadência e a apostasia do gênero humano da eternidade divina, revelando Jesus como a única e definitiva opção de salvação. E a lei, por conta das relações sociais, religiosas e étnicas, fecundou-se de humanismos e caracteres temporais mutantes conforme a história e os interesses sócio-eclesiásticos.

Deus não se sujeita à lei, pois não há competente juiz para julgá-Lo. Então a lei nos foi revelada por um gesto do amor divino, compreensivo e tolerante com as nossas formas de literatura religiosa. Pois é sob uma forma literária que pensamos e agimos. Somos prisioneiros das formas e pequenos como conteúdo. E é essa pequenez que valida a lei e seu “fiel” cumprimento, levando à condição de injustos e imprudentes aqueles que renegam a herança legal.

No texto bíblico, Jesus resgata com ênfase as verdades literárias expressas por Deus a Moisés, e vai além, ultrapassando à capacidade de compreensão de um conteúdo prisioneiro do tempo e do espaço: fez-se  imprudente para mudar o destino da humanidade. Ofereceu-se como cordeiro, entrou na literatura religiosa para ser punido por ser Deus e contrariar as leis intransponíveis até para os deuses.

Jesus não contestou a lei, apenas cumpriu-a com perfeição, retirando-a da literatura religiosa e inserindo-a na eternidade, sem limites e formas, sem pesos nem medidas. Resumiu a lei a uma consciência de amor mútuo entre Deus e os homens, revelando o poder transformador contido na intenção divina, oferecendo-se como meio de graça e de vida permanente.

Salve a lei! Salvem-se da lei.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A Lei – Anúncio Messiânico

Mateus: 5, 17-42

Numa segunda tese, entendemos a lei como uma providência para o anúncio messiânico, pois a Lei de Moisés não foi promulgada com um caráter jurídico, mas com uma clara intenção misericordiosa de Deus para com o homem. Aqui, a questão não é o cumprimento dos postulados legais, mas a clara demonstração da necessidade de uma mudança existencial, uma conversão em fé que gere um novo ser que assuma interiormente novos valores, tornando-se agentes modificadores da sociedade. Pela conversão, a lei sai do papel e se imprime na alma humana, gerando amor, caridade, compaixão e esperança nas ações salvadoras de Deus.

A lei anuncia a Jesus, pois só Jesus pode transformar o gênero humano, quebrando a cadeias de valores da humanidade e alterando por completo o destino e a vocação dos homens. Embora, a lei seja usada pelos homens para julgar e condenar, pois a sociedade só conhece o contexto jurídico da lei, Deus promulga e utiliza a lei como instrumento de denúncia dos equívocos humanos, e de redenção na medida em que é um forte apelo a conversão e a vida eterna.

A impossibilidade do cumprimento da lei, por iniciativa humana, em razão da incapacidade humana de interpretar a lei corretamente, é de pleno conhecimento de Deus, como afirma Jesus: Basta ao homem pensar, pois na intimidade do ser o homem se revela apostatado por inteiro de Deus. A conversão é a única forma de reverter a história. Os Patriarcas judaicos viveram pela fé sem a lei na esperança messiânica do novo reino e de uma grande nação. Sobre o prisma da conversão, também viveram os profetas, repudiando, com oráculos específicos, todas as práticas litúrgicas e legais do povo judeu, demonstrando que os ritos não correspondiam às atitudes geradas por uma verdadeira conversão.

Ainda hoje o cristianismo está impregnado de legalismos e legalistas, que renunciam a Jesus em favor de um sistema de leis e regras sem fim, tendo como característica julgar e disciplinar ou condenar seus semelhantes. O cristianismo assumiu a forma de uma religião qualquer, e os “cristãos” não passam de escravos de regras e normas estranhas a teologia bíblica, tendo como práxis esforços e penitências para agradar a Deus.

A lei não passará, nem será alterada e ninguém conseguirá viver por ela. A lei anuncia o Cristo, única fonte de vida e regeneração, única possibilidade de conversão, de mudança e de liberdade. A fé não faz prisioneiros, mas liberta a vida para o prazer, a felicidade e a eternidade.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A Lei – Símbolo do Impossível

Mateus: 5, 17-42

As primeiras questões em que penso são: quem elaborou a Lei do Velho Testamento? O que existe de verdade divina na lei mosaica e para que serve uma lei impossível de ser cumprida?

A primeira tese é que a lei não demonstra tão claramente quanto parece ser a vontade de Deus para ser seguida com rigorosa devoção, antes, expressa um estado de vida. Ausência de Deus, ausência de Jesus, ausência do elemento divino que compõe a história da vida eterna e transforma as realidades existenciais. A lei não salva, ao contrário, condena, gera discórdia, alimenta diferenças sociais e culturais promovendo a guerra e a destruição da raça humana. É então que associo a lei a um marco instituído por Deus para testificar ao homem a sua incompetência material, temporal e existencial, mesmo quando ele tenta promover-se ao sagrado.

A lei é um claro sinal das impossibilidades, aprisionando o corpo e o espírito humano a regras, formas, modelos, todos fúteis e levianos para com o sagrado. E a natureza humana parece vocacionada para estar prisioneira de leis, pois vivemos num mundo de espaços pequenos, de valores restritos, de pensamentos mesquinhos, em que só o vento pode ir e vir livremente e desembaraçadamente. Saímos do Éden para criar padrões divinos que substituíssem a presença de Deus. Criamos divindades cultuáveis e determinamos quem e o que é mais santo, mais sagrado. E nos obrigamos a ritos e liturgias, a formas e processos limitantes, restringindo os poucos espaços, vedando o mundo à própria presença de Deus, mas, matando e roubando, destruindo nossos semelhantes e o conjunto dos seres que formam o nosso ecossistema. É pela lei que ás mortes na Palestina não cessam.

Jesus afirma que a lei jamais mudará, como não mudará o destino da humanidade sem que se vá muito além da justiça dos escribas e fariseus. Sem que haja uma conversão que instaure um novo reino, um novo rei, um novo homem e o verdadeiro e eterno Deus. Jesus é o Deus conosco, o Deus em nós, que imprime na alma um desejo irresistível de comunhão universal, de tolerância desmedida, de amor transbordante pela vida.

Venha o Teu reino, onde não existem juízes julgadores de ninguém, onde a vocação humana é viver além da plenitude dos tempos, onde os escribas dissertam poesias e fariseus lustram os móveis e a lei é um símbolo do passado, de um tempo que não voltará jamais.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O Eixo Fascista das Religiões

As religiões não admitem nenhum tipo de crítica. A razão é considerada a grande produtora de heresias e pecados mortais. O senso comum e a necessidade dos inseguros na fé exigem o literalismo escolástico, firmando uma imagem divina cruel e vingativa. Juízo é o que falam de Deus. E julgam e julgam, infinitamente! Não reconhecem o perdão e o amor, nem a misericórdia divina. Constroem estranhas catedrais de veneração a deuses desprezíveis, fruto de doenças cognitivas que fazem dos seus deuses, poderosos imperadores. Se os proclamadores religiosos entendessem que somos o desejo de Deus, que fomos gerados por e em Seu instinto Divino, poderiam ser mais úteis aos seus semelhantes. As liberdades individuais de ser e existir, a força suprema do instinto de ser humano, conceitos e atos amplamente incentivados por Jesus Cristo, foram banidas das religiões como um valor teológico. De tal sorte foram condenadas ao exílio, que o senhor da razão humana é chamado de satanás, ente estranho e medonho. Um corruptor de espíritos que se opõe à disciplina dogmática religiosa.

Decerto, posso reafirmar a constatação de Nietzsche: “A atração exercida pelo conhecimento seria bastante fraca, se para atingi-lo não fosse preciso vencer tantos pudores.” (Além do Bem e do Mal - Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) – pag. 76).

quinta-feira, 14 de março de 2013

Jesus barrado no conclave dos Cardeais


Reputo o Leonardo Boff como um dos poucos teólogos lúcido e cristão na AL. Sua incursão na Teologia da Libertação foi sempre defendendo uma posição cristocêntrica e muito próxima da Teologia da Esperança, nunca foi um radical de esquerda. Se existe alguma semelhança entre o partilhar o pão com o marxismo, é mera coincidência, uma ação é ética valorosa, enquanto a outra é ideologia política teórica.

Boff com sua forma, peculiarmente, leve e amorosa de expressão, analisa de forma crítica o fulcro de todas as questões eclesiásticas, ou seja, as instituições estão acima de toda a expressão de fé. Jesus foi crucificado pela sua religião de origem e continua a ser crucificado por todas as religiões que se intitulam cristãs.

http://correiodobrasil.com.br/noticias/opiniao/jesus-barrado-no-conclave-dos-cardeais/590190/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=b20130314

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Explicando o Natal


Lucas: 2, 25-34; 40.


Explicar o Natal em uma página literária não é difícil. Mas existem páginas muito difíceis de explicar o Natal. Falo das páginas da vida. Vidas que falam de morte, sofrimento, prisão, violência, infelicidade. Gente incapacitada, cujos movimentos se foram e seus corpos largados em leitos de hospital dependem de cuidados especializados para sobreviver. Gente doente, em fase terminal, agonizantes em dor e desesperança. Gente que mata para cheirar algumas gramas de cocaína. Gente que faz a guerra para sustentar-se no poder. Gente sem terra para plantar, sem teto para morar, sem emprego para se sustentar. Da doença à miséria, páginas difíceis de explicar a redenção, a festa divino-humana, o Natal.

Ah, menino Jesus! Nasceste num inferno? És produto da imaginação religiosa de um povo carente de esperança? Ou talvez só alguns consigam festejar-te? Aqueles sadios, bem empregados, de famílias estruturadas, bons degustadores de vinhos e perus.

Não podem as páginas da vida explicar nem a própria vida. A vida que conhecemos inicia uma história de terror e desventuras a cada página, em cada capítulo. Não conseguiríamos explicar o Natal através de uma página de vida. Ao contrario, explicamos a vida através do Natal. Pois um menino nos nasceu. E com Ele nasceu o desconhecido, o não experimentado. A vida! A possibilidade de felicidade independente de pão, de terra, de teto, de saúde física, de fartura ou miséria. Não conhecemos vida sem os elementos físicos de nosso planeta, ou sem os elementos psicológicos de nossa estrutura humana. O milagre do Natal é o milagre da vida. É quebra de padrão, é transcendência material, física, psíquica e social. É Deus quem revela, mostra e concede o que não conhecemos: a vida.

As tragédias deste mundo são deste mundo. Contam as histórias de um mundo órfão por opção. Tristes e deprimentes histórias. Não falam de vida, falam de morte.

E neste mundo virado ao avesso, nasce um menino. Imanência divina que revela e concede a vida, realiza a esperança e planta a felicidade, capacitando-nos à transcendência física e temporal. E a partir do menino da vida, dessa nova realidade, renascemos, crescemos e nos fortalecemos, enchendo-nos de sabedoria; e a graça de Deus é presença permanente sobre nós.

Para todos feliz Natal e muitas alegrias em 2013.

sexta-feira, 16 de março de 2012

O SAL DA TERRA E A LUZ DO MUNDO


Mateus: 5, 13-16

De modo geral, pensamos nas propriedades do sal e na sua utilidade para fazer um paralelo com as qualidades do professo cristão. Contudo, proponho uma reflexão em outro caminho. Penso que Jesus ilustrou seu ensinamento com uma substância preciosa nos tempos antigos. O sal tinha um valor maior percebido na antiguidade do que nos tempos atuais, embora suas propriedades continuem sendo as mesmas.

Se considerarmos que o sal está presente nos oceanos, fonte de vida e de sustento de vida para todo o ecossistema do planeta, que o sal é um dos elementos essenciais na composição química dos seres vivos, e seu consumo é indispensável em porções adequadas, e seu uso se dá tanto pelos animais e vegetais quanto pelos homens. Então verificamos que o sal é um dos elementos químicos que caracterizam nosso mundo, nosso planeta, nossa vida.

Somos sal. Somos um produto bioquímico deste mundo, um composto químico, no qual Deus, com seu sopro, criou uma alma capaz de transcender a matéria e o mundo, para esperar no infinito e no imaterial o nosso desejo eterno de vida e amor na companhia do criador.

E a alma, que brilha como luz do farol de Deus, indica o princípio e o destino da vida. Sal e luz, vida e destino. Luz em nós, Emanuel, Deus conosco. Em cada corpo, em cada alma o sal que nos define materialmente como humanos e a luz que distingue nossa alma desafiando as estruturas físicas, iluminando a eternidade, lugar maior das possibilidades.

A matéria é a nossa prisão. Somos sal, humanidade que não se perde, realidade que não pode ser ignorada, não permitindo abster-nos dos desafios e combates desta vida, antes, exigindo vencê-los para que não nos tornemos insípidos e pisoteados por esta geração salgada e sem luz.

Somos como um cristal de sal que reluz ao sol. Que testifica a grandeza do ato criador e todas as limitações da materialidade rebelada, mas testemunha na luz do espírito o desejo maior de Deus.

sábado, 10 de março de 2012

BEM AVENTURADOS OS INJURIADOS II


Mateus: 5, 11-12


Das profundezas do abismo, reino das trevas, de espaços pequenos, incômodos, perigosos, inseguros, contemplo a imensidão do cosmo. E os brilhos de milhares de estrelas festejam a Tua presença, Senhor meu Deus. Sinto uma brisa refrescante e perfumada. E o sol, que de lá não se vê, resplandece aquecendo-me o corpo e a alma. Posso sentir a espuma do mar esparramando-se em branca e suave areia, num convite às brincadeiras de verão, que não existem nos abismos, sérios, frios e escuros. Posso ver cores, flores, frutos e sentar-me à mesa para saborear pão e vinho fartamente servido.

A vida nos abismos é dependente de um pragmatismo existencial insuportável. Sem cheiros, sem brilhos, sem calor, sem pão e sem vinho. Cegos, em luta pela sobrevivência, esforços e suores, gladiadores vorazes lutando pela existência. Lugar das desconfianças, inseguranças e insatisfações, onde não conquistar significa não ter e, não ganhar, significa perder.

Das profundezas do abismo, reino das trevas, eu vivo a nostalgia do porvir, a esperança do passado e a plenitude do presente. E do confronto das experiências de vida nasce o conflito, a incompreensão e a agressão. No mundo das profundezas não existe lugar para a poesia, para a contemplação, para o belo, para o eterno. O mundo das profundezas é o lugar das articulações, das guerras, das conquistas, lugar de ações enérgicas e eficazes. Onde o belo é derrotado pelo prático, a poesia pelos gritos de ordem, a contemplação pela ação e a eternidade pela morte.

E os conflitos são inevitáveis. As perseguições fazem parte da estratégia de defesa de valores questionados pela fé; esperança e amor.

Bem aventurados os injuriados e perseguidos pela loucura da fé, pela insanidade de suas esperanças, pela incredulidade nos valores deste mundo, pelo imperdoável amor aos seus algozes. Regozijai-vos e exultai, porque são grandes as vitórias eternas, e a vida será compartilhada da presença do Senhor Deus, nosso terno e eterno Deus.

BEM AVENTURADOS OS INJURIADOS I


Mateus: 5, 11-12


Houve um tempo em que confessar-se cristão protestante era um ato perigoso que colocava em risco a própria vida. Em vários momentos da história registramos a intolerância e muitas perseguições aos cristãos. A reforma do século XVI ampliou e diversificou o foco e o clima das perseguições e o autoritarismo religioso. Até poucos anos atrás registrava-se em nosso Continente verdadeiros cenários de guerra entre católicos e protestantes, vistos frequentemente, em especial, na região nordeste do Brasil. Nos dias atuais o Ocidente vive um tempo de liberdade religiosa nunca visto, e a liberdade de culto integra a maioria dos textos constitucionais, como, por exemplo, em nosso país.

A perseguição a Cristo, no entanto, jamais deixou de existir. Na verdade estamos falando do primeiro conflito do homem contra Deus. Expulso do Éden, primeiro local de campo de batalha e do confronto direto do homem a Deus. A humanidade e em especial as religiões, combatem, desde então, a Palavra de Deus, seus intérpretes e seus profetas. A regulamentação doutrinal, moral e comportamental, a sistematização da teologia, da liturgia e a formulação dos dogmas, fazem do homem gestores das verdades compreendidas acerca de Deus. Não sendo absoluta, a gestão humana falha e induz ao erro muitos fiéis, enquanto novos códigos surgem, ou são contextualizados, na medida em que evolui a capacidade de compreensão da humanidade.

Ao definirmos intransigentemente um modelo de gestão divina, militarizamos a Santíssima Trindade com objetivos, estratégia e poderio bélico capaz de defender-se e atacar as nossas “alucinações”, inimigas da humanidade e de Deus. É neste contexto que surgem as injúrias dos religiosos contra os santos de Deus, os pacificadores, que se tornam perseguidos por religiosos guerreiros, apologistas das verdades religiosas, odiosos da liberdade, do prazer, da felicidade, do amor, da piedade, da tolerância e da eternidade.

O preço da fé é a convivência com as bobagens proferidas pelas serpentes da vida religiosa, suas bocas venenosas e a crueldade com que atacam e matam os santos de Deus. Bem aventurados os injuriados, grande será a recompensa nos céus.

BEM AVENTURADOS OS PERSEGUIDOS


Mateus: 5, 10


O Estado e a religião são velhos companheiros na história da humanidade. Parceiros na defesa das mais legítimas ações sociais e cúmplices nos mais espúrios interesses econômicos. A história é testemunha desta associação, e a Igreja Cristã não é exceção. E, em nome da vontade de Deus, a Igreja age para fazer valer os interesses dos mais diversos grupos do poder político. E os livros sagrados, quando não funcionam como Constituição, influenciam todos os poderes constitucionais, em especial com relação à cidadania, aos direitos e deveres do cidadão.

Foi fundamentado em um código religioso que Jesus foi condenado à morte, foi com a complacência da Igreja que seis milhões de judeus foram exterminados, foi a Igreja Presbiteriana do Brasil quem condenou ao despojamento do Sagrado Ministério muitos pastores, numa caçada às bruxas ocorrida no período da ditadura militar, após o golpe de 1964. Sem falar naqueles que foram denunciados às forças armadas, injustamente, para serem punidos, presos e torturados, acusados de comunistas, sem provas, sem julgamento, sem defesa, por interesses políticos e econômicos, em nome de Deus e da boa prática Presbiteriana.

O reino dos céus não é propriedade das religiões e nem dos homens que vivem sob o jugo das leis religiosas e de suas nações. Como também não é propriedade dos anarquistas, revolucionários, revoltosos ou insubordinados à ordem social.

O reino dos céus é o habitar daqueles que se fazem morada do Espírito de Deus, que olham o mundo grávidos da bondade divina, que falam do Deus que quer amar-nos intensa e eternamente, das possibilidades transcendentes da vida sobre a morte, dos limites do tempo e da eternidade. Ah!... Se soubéssemos que somos o desejo de Deus. O homem de Deus denuncia, por seu testemunho, por sua palavra e por sua vida, as tolas e finitas propostas humanas, sua ineficácia, seus objetivos, valores e métodos, as injustiças sociais presente em todas as sociedades do mundo, promovendo a paz, inalcançável pela iniciativa humana.

Bem aventurado os perseguidos da impiedosa e interesseira justiça humana, bem aventurados aqueles que não se confrontam com Deus, mas antes, se tornam cheios de sua divindade em Jesus Cristo, pois deles é o reino dos céus.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

BEM AVENTURADOS OS PACIFICADORES


Mateus: 5, 9

“... e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem.” Cantaram as multidões de anjos na festa do nascimento do menino Deus. Paz... — palavra simples, significado de fácil e universal compreensão. Utopia religiosa para o mundo que só evolui com a guerra e as grandes questões econômicas-diplomatas. Mundo em que a morte nutre a vida e a guerra nutre a paz. A alma humana precisa estar em conflito para encontrar a paz. Fala-se da miséria, da fome, do domínio político e econômico, da escravidão, das crises e interesses econômicos e sociais, como se fossem um conjunto de fatores externos que plasmassem na alma humana o conflito, a insegurança, os temores, o ódio e a revolta, geradores de guerras pessoais e sociais.

Os conflitos, em todos os níveis, desde o indivíduo, a família e os grupos sociais sempre existirão. Os códigos genéticos e o meio ambiente de cada ser humano geram emoções e reações incontroláveis e inevitáveis. Mesmo em nome de Deus o homem — através das religiões — tem matado, destruído o meio ambiente, julgado injustamente o mundo e as pessoas, exigindo lealdade escrava, submetendo os mais fracos e guerreando com os mais fortes, apregoando uma paz alienante, lasciva, lúbrica, torpe, interesseira e cruel.

A paz não é ausência de guerras ou conflitos internos e externos. A paz é um estado de espírito em consequência da descoberta e da consumação do ser, do porvir, das possibilidades existenciais eternas. É a descoberta da vida que não acaba. Ato regenerador divino, que salva a vida da morte revelando a verdadeira paz, a verdadeira segurança, os verdadeiros objetivos da vida.

Os pacificadores são os filhos de Deus. Natureza humana e natureza divina, como em Maria, os pacificadores, utilizando um neologismo, “gestam” o Espírito de Deus em suas almas.  É como se estivessem grávidos do Espírito e vivessem a experiência da eternidade ainda neste nosso “mundinho”. Experimento de uma existência não conhecida, de um sentimento transbordante que pervade todo o ser e, de maneira incontrolável, tenta alcançar seus semelhantes. Os pacificadores são anunciantes incondicionais, promotores da paz, testemunhas de um novo mundo, de uma nova geração, de uma nova possibilidade de vida. Bem aventurados os pacificadores, pois estão em paz e serão conhecidos como filhos de Deus.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Motivo do Natal

Evangelho de João 1, 1- 16.


E o verbo era Deus. E por Ele tudo foi feito. Conjugação harmoniosamente criadora, expansão de amor produtivo e fecundo, nos detalhes mais pequeninos a atenção cuidadosa para gerar o equilíbrio físico, biológico e químico do universo. E pelo verbo, palavra de ação, Deus a tudo criou. E o universo brotou do nada em explosão de vida e beleza, perfeito equilíbrio de astros que bailam nos céus com movimentos variados e divertidos. Dia e noite Deus criou. Estrelas cadentes enfeitam as noites enquanto cometas velozes disputam corridas intermináveis e os sóis iluminam e aquecem inúmeros planetas, espectadores e hospedeiros de incontáveis criaturas. Pelo verbo, pela palavra.

Mas a ação Divina revela, surpreendentemente, uma nova conjugação, um novo verbo, uma nova ação. “Façamos o homem”. Com as mãos, com o sopro, doação de imagem e semelhança. Desejo inequívoco de Deus, explosão eterna de amor. Criatura amada, criada para amar aquilo que foi criado, expandindo-se em amor, gerando vida que é o fruto maior do amor. Contemplar a beleza do universo criado, visitar cada estrela, cada planeta, cada céu, cada criatura, na eterna companhia de Deus.

Contudo, o desejo de Deus se fez carne e habitou um planeta temporal, com criaturas igualmente temporais, que se comem mutuamente, se mastigam, para sustentar a vida. Perdeu-se do amor, perdeu o amor, deixou de amar. Os astros se tornaram um mistério insondável, divinizados pelos primitivos, temidos pelos de maior conhecimento. O medo de deixar de existir impera na consciência humana e a razão aflorou ancorada de imbecilidade do pensamento cartesiano, determinando conceitos de ser e existir absurdos aos olhos divinos. Muita gente morre por pensar e agir diferente. Muita gente mata, rouba e destrói o próprio planeta seguindo a razão e atendendo falsas necessidades.

E é por este homem, desejo de Deus, fruto de seu amor, que o verbo se fez carne e habitou entre nós. Não, não foi para cumprir uma liturgia judaica, tão pagã como todas as que sacrificavam as criaturas de Deus a ídolos e a deuses desconhecidos. Foi para resgatar, tirar os limites a que o próprio homem se impôs. Vencer com vida a morte, nossa única criação. Retirar a âncora da razão, e nos mostrar as possibilidades primeiras. Caminhar sobre o mar, por entre os astros, não por poder, mas por expressão de amor. E habitou entre nós, para ensinar, para amar, satisfazer a saudade de seu desejo, e chamar-nos à sua companhia eterna, mesmo aqui, nesse “mundinho”.

Natal. Festa da vida, do amor. Festa de Deus oferecida à humanidade. Conjugação de verbos que a razão não conhece. A razão não estava no início. “No princípio era o Verbo”, só o Verbo, que é Deus, ilumina a vida e dá sentido ao Natal.

Wagner Winter – Reflexões de Boletim, Rio de Janeiro, 1997.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

VIDA (AINDA SOBRE OS LIMPOS DE CORAÇÃO)


Isaías 6: 1-3 / Homilia pelo Rev. Zaqueu Ribeiro

“No ano da morte do rei Uzias...”

Enquanto alguns pranteavam a perda do rei, outros comemoravam sua sucessão. Enquanto os poderes políticos e econômicos planejavam as estratégias de governabilidade e produção, muitos como nós, se angustiavam com o futuro de suas vidas. Enquanto os sacerdotes conclamavam ao povo à realização dos ofícios litúrgicos e, ao mesmo tempo, uniam-se ao poderes governativos do novo reino, havia as incertezas das mudanças duras que a vida e o tempo obrigam constantemente o homem a fazer e a viver.

“... eu vi o Senhor...”.

Se a morte do rei Uzias marcou aquele tempo do profeta, outras mortes marcam os nossos tempos. Porque a morte é capaz de marcar muito mais do que a vida. Pois o primeiro ato da vida é lutar contra a morte. A vida luta sem estratégia eficaz, onde a morte se faz presente dia a dia, até que vença e a vida sucumba em morte.

É no contexto da morte que o homem cria valores que disfarçam a impotência da vida diante da morte. A sociedade está disposta em áreas de valores tais como: governo, capital, trabalho, cultura, religião, ciência, esporte, arte, mídia e muitas outras. A humanidade se projeta por aquilo que faz e se sustenta emocionalmente por valores gestados apenas pela necessidade de ser e de existir. Até que as tragédias da vida retirem as seguranças sociais alcançadas, e instaure-se a crise que nos traz a lembrança da morte.

Este é o contexto humano. Frágil em sua essência, delicado em seu ambiente, repleto de carências e em permanente contato com a morte simbolizada por todas as derrotas sociais. É diante de tantas impressões ruins que o profeta diz: eu vi o Senhor.

Eu também O vi. E as derrotas sociais perderam o valor de morte, porque a esperança na vida ficou marcada em minha alma no momento em que eu O vi. O Senhor é a vida que venceu por mim a morte. Não testemunho do alto do poder humano, ao contrário. Mas falo na presença Daquele que me gerou vida eterna, que predestinou-me à vitória sobre a vida e sobre a morte.

No tempo da minha morte eu vi o Senhor, venci a morte e guardo a esperança da vida renovada pelo Senhor dia após dia.

BEM AVENTURADO OS LIMPOS II


Mateus: 5, 8

Assisti uma reportagem sobre uma ordem religiosa que se mantém em eterna clausura. Eles se mantêm fora do mundo, fora da sociedade, sem o menor contato com as pessoas e a vida. Nenhum prazer é desfrutável. Nenhum desejo é permitido. Por amor a Deus, vivem uma proposta de vida solitária, cujo objetivo único é estar na presença de Deus.

De modo geral todos têm uma proposta de vida para Deus. Nossas preces são prova disto. Propomos a Deus nossas idéias e vontades, nossos sonhos e esperanças, e, ao final, para garantir a eficácia da prece, incluímos um: seja feita à Tua vontade. Nossas propostas, nossas vidas. Formalismo do pecado humano, necessidade de conversar com Deus oferecendo alternativas as ações divinas. Soluções de gerente que se reúne com o presidente da empresa. Folha de parreira que sugere a solução do problema da nudez.

As multidões sempre têm propostas. A solidão é uma proposta. Conhecemos a Deus por nossas propostas e nossa fé é uma proposta de culto ao Deus que não enxergamos. Não enxergamos porque temos muitas e importantes propostas para Deus. Como enxergar um deus contido em nossas propostas? Como enxergar por detrás das folhas que cobrem nosso corpo e revestem nossa alma?

Bem aventurados os que enxergam a Deus. Eles são limpos despojados em suas propostas humanas. Não escondem seus corpos nus vestindo-se de santidade espúria e inócua. Não fazem esforços para demonstrar competência e talento diante de Deus, antes, assumem sua nudez, seu pecado, sua pequenez, sua vontade de prazeres e seu irresistível desejo de enxergar a Deus. E é esse desejo de Deus que leva a sucumbência nossas propostas tolas, inteiramente temporais, para assumirmos as propostas divinas de vida. Vida eterna. Propostas eternas.

Deus está ao alcance de todos, mas só os bens aventurados conseguem vê-lo na multidão, aqueles, limpos de coração.

BEM AVENTURADO OS LIMPOS


Mateus: 5, 8

No mundo religioso Deus é o contexto vital de todas as coisas. Outro dia, ouvindo um testemunho vocacional, percebi a insistência na afirmação de que Deus é a origem e o destino da vocação religiosa. E não cessamos de ouvir: Deus é tudo; Deus está nos vendo; Deus te pagará; Deus me orientou; Deus me livrou; Deus me abençoou; Deus me salvou. Todos falam em Deus enquanto muitos falam por Deus. Outros, contudo, se enriquecem a custa das pessoas que querem fazer de Deus um meio de solução para toda a sorte de problemas.

Apesar da grande religiosidade do povo, é dificílimo conhecer a Deus pelo que as pessoas falam e pensam. Em cada palavra um testemunho, um pensamento, um código religioso. A vontade de Deus emana da ótica humana e da confusa percepção da vida de cada fiel. Da repressão cultural às liberdades morais, cada grupo religioso pensa, ou imagina que pensa, de forma inteiramente diferente. Deus acaba se tornando o Deus do imediatismo humano.

Escondido pela pequenez do homem, propositadamente ou não, Deus observa a multidão que o procura, e diz: bem aventurados os limpos — ou puros — de coração, por que verão a Deus.

Ver a Deus é um privilégio de poucos. Somente os limpos de coração podem vê-lo. As multidões de religiosos definem a limpeza —ou pureza — de coração como uma candura da alma. Uma virtude moral, imune as tentações do pecado e dos desejos humanos. Mas o que significa, à luz da teologia bíblica, limpeza de coração? Não pode ser uma simples metáfora de ordem moral, pois a conseqüência de ver a Deus aprofunda a complexidade da causa.

A multidão não o enxergava como Deus, mas contemplava o mistério em sua aparência, como a demonstrar ao mundo a impossibilidade de distinguir a Deus com os olhos humanos. Limpo é vazio. Ausência de roteiros e códigos humanos. Inexistência de objetivos temporais sem pré definição do que se precisa enxergar. Limpar é morrer homem e renascer filho de Deus. É permitir a ação transformadora de Deus, refazendo a vida com dolorida morte. Não é fácil abrir mão de nossa humanidade. Quebrar padrões historicamente conhecidos e saltar sem pára-quedas numa experiência transcendente de fé. É caminhar no deserto, colhendo o maná, sem saudades das seguranças egípcias. É neste momento, que olhando para aquele homem de Nazaré, percebemos além de sua figura humana, a gloria majestosa de Deus.

O mundo religioso é ambiente para o desenvolvimento de uma grande fé. Mas não é bastante para garantir a comunhão com Deus. A comunhão é privilégio individual dos limpos, dos bem aventurados.

BEM AVENTURADOS OS MISERICORDIOSOS


Mateus: 5, 7

Ao longo da História da Igreja Cristã esse tema tem recebido a atenção de muitos pensadores. É um tema difícil, embora aparentemente óbvio, pois trata-se de algo muito conhecido, muito comum, muito humano. Misericórdia, compaixão... pena... .  Sob o ponto de vista da observação prática, a misericórdia tem sido exercida de maneira equivocada. Confundida com uma espécie de cumplicidade com a desgraça alheia. A valorização dos males, das desventuras, dos azares e das tragédias comovem, entorpecem, nos envolvem gerando um ambiente negativo na comunhão humana.

Nietzsche dizia que a misericórdia era um instinto depressivo e contagioso, debilitante de outros instintos que querem conservar e aumentar o valor da vida; é uma espécie de multiplicador da miséria humana, por isso é um dos instrumentos principais da decadência do homem.

O homem tem a capacidade de metabolizar miséria e verter-se em piedosas lágrimas que irrigam o solo do desalento germinando a piedade.

A misericórdia, dita por Cristo, não é um ato gerado por emoção, por pena. Antes é uma atitude intencional, pensada. Como uma bondade consciente, que não se engana em seu objetivo e natureza. Dizemo-nos misericordiosos quando sacrificamos um animal muito querido cuja vida seria um agonizante sofrimento. Misericórdia não é cumplicidade com a miséria e a desgraça do homem e muito menos o sentimento de pena de alguém por qualquer razão. Misericórdia é compromisso com o homem, independente de sua situação. Não é um sentimento, mas uma ação que resolve. Que restaura a dignidade valoriza a vida aumentando o prazer e a felicidade.

A misericórdia é um comprometimento interior que se cumpre dia a dia diante da vida dos homens que dele precisa. É compromisso de vida, de fé. Deus foi misericordioso conosco no "Jardim", decretando, antes que tudo acontecesse, morte para o conhecimento do "mal": uma escolha que seria feita pelo homem. De imediato inicia-se o processo de resgate, de regeneração e Deus age intensamente para oferecer ao homem uma nova oportunidade de escolha. A misericórdia não tem compromisso com a caridade, nem com a impunidade, pois a vida é um permanente desafio de seleções, de escolhas. E aos perdedores, as desgraças consequentes da má escolha. Atuar na recuperação do "desgraçado" é um ato de misericórdia, de lealdade com a vida, de lealdade a Deus e a sua criação.

Bem aventurado os misericordiosos, que não são enganados pelas histórias tristes da vida, mas atuam com firmeza na valorização das virtudes humanas, na recuperação do que foi perdido, e em especial, na anunciação do Cristo salvador e regenerador de toda a vida, eles alcançarão a misericórdia de Deus, para sempre.

domingo, 21 de agosto de 2011

BEM AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA


Mateus: 5, 6

Vivemos num mundo de injustiças. Nunca estamos satisfeitos com o que temos e julgamo-nos merecedores de maiores favores da vida. Julgamos nossos atos comparando-nos a outras pessoas e, de modo geral, não encontramos motivos para sermos menos beneficiados do que nossos pares. Por outro lado, os homens se agridem mutuamente, gerando danos físicos, morais e financeiros. É para arbitrar sobre essas questões que a sociedade vive sob leis, que visam garantir o direito individual e coletivo das pessoas.

O mundo clama por justiça. Das questões mais básicas da sobrevivência a polêmicas de fórum internacional ou multinacional. Justiça pelo direito de cultivo da terra, justiça pela soberania de uma nação, justiça pelo direito ao pão, justiça para a violência urbana que mata mais do que uma guerra e torna o cidadão refém do crime organizado, prisioneiro em seu espaço residencial como um animal em cativeiro. A sociedade não distingue mais a ação de policias e de bandidos e a indignação pelos desrespeitos aos valores humanos e sociais fazem eclodir do peito o clamor desesperado e muitas vezes agonizante: justiça!

Nesse momento eu paro e medito sobre as palavras de Jesus. Não pode ser desta justiça que Jesus falava; a justiça dos homens. Ele mesmo foi julgado e crucificado injustamente! Talvez a chave para compreendermos o texto não esteja na justiça, mas nas suas conseqüências: a fome e a sede. Ah! O que representam a fome e a sede? Carência de vitalidade, possibilidade de morte, desejo incontrolável de suprir a vida dos elementos que a sustenta, sintoma inequívoco de debilidade física que põe em risco o existir, que gera distúrbios no corpo e na mente. Você já dormiu com muita fome? Não é difícil lembrar-se dos sonhos de uma noite de fome. É uma necessidade tão vital que a própria sociedade garante o direito, nesses casos, de qualquer pessoa se alimentar sem nenhum preço a pagar. A fome não gera clamor e sim ação vigorosa na medida de sua necessidade.

É preciso ter fome e sede da justiça divina para recebê-la com fartura. A justiça divina, que não é cega, mas enxerga cada ser humano em sua alma em sua necessidade vital, em sua sucumbência temporal. Fome e sede da alma são desejos de Deus. De libertação do jugo do pecado e de receber a justiça que emana de Deus: vida plena, liberta e eterna. Bem aventurados os que sentem vontade de viver. Bem aventurados os que não suportam a angústia da morte e buscam a plenitude da vida na mesa farta do Senhor Jesus. Bem aventurados os que não se conformam com o juízo de Adão e buscam em Cristo o restabelecimento da justiça de Deus.

Bem aventurado o homem que se refez em Cristo. Que parte o pão e toma o vinho, saciando seu corpo dos elementos vitais, satisfazendo sua alma e se reabilitando à comunhão eterna de Deus.

BEM AVENTURADOS OS MANSOS DE ESPÍRITO


Mateus: 5, 5.

Quando era bem menino, lembro-me bem, meu pai nos levava frequentemente a passeios pelos morros da Ilha do Governador. Por matas e barrancos apreciávamos as paisagens e sentíamos os deliciosos cheiros das plantas, flores e árvores, muitas vezes misturados aos odores do mar trazidos pelo vento que nos batia à face. Um blended de odores que não sai nunca mais da memória.

Fui criado assim por meu pai, aproveitando todo o tempo possível para correr estrada e fotografar na mente as mais belas paisagens da vida, a obra de Deus. Contudo, coisa de criança, sempre me perguntava: de quem é essa terra? Se foi Deus quem a criou, como alguém se fez dono? Acho que até hoje eu não tenho resposta para as perguntas daquele menino que, percebendo a presença criadora e sustentadora de Deus diante de tamanha beleza e de tantas cores, formas, cheiros e vidas não compreendia o direito de propriedade humano.

Na maturidade pude entender que o sentimento do menino estava certo. As crianças não contaminadas pelos pensamentos dos adultos não conhecem os limites impostos pela cultura humana. São humildes em sua estrutura natural. E invadem os espaços sem constrangimentos, brincam nos campos, desvendam os mistérios das trilhas da mata como se estivessem no que é seu. Tomam posse de qualquer lugar sem cerimônia.

Quem é dono de alguma coisa? Os mansos, humildes, convertidos herdarão a Terra. Por que não existe nada humano além de uma posse temporal. E o tempo é impiedoso com os posseiros deste mundo; as varas cíveis são testemunhas das desavenças enquanto as propriedades se deterioram ou são invadidas por novos posseiros. Posse, poder, capital, tecnologia, informação, domínio de mercado. Cultura humana que o tempo não perdoa. Posse de bens, de conhecimento, de emprego, de empresa, de capital, de títulos sociais: doutores e excelências; pensamos que temos tudo e dizemos que somos aquilo que temos.

Bem aventurados os que com Deus desfrutam sem limites de toda a Terra, onde os limites humanos transcendem o conceito terreno das possibilidades e a tecnologia não impõe limite, as estratégias operadoras e empreendedoras de capital são entendidas como atividades abençoadoras de vidas e o lucro não é propriedade, mas instrumento gerador de prazer. E a maior titularidade é servo do único Senhor, Criador de todas as coisas.

Bem aventurados os humildes, os convertidos, os que choram a pequenez dos que se julgam grandes donos deste mundo, pois em sua humildade não conhecem os limites do mundo e no Espírito de Deus desfrutam de todas as possibilidades do Ser em manifesto estado de prazer e felicidade. Bem aventurados os mansos, pois somente eles herdam sem limites o mundo de Deus.

BEM AVENTURADOS OS QUE CHORAM


Mateus: 5,4.

Pessoas choram. Choram as emoções que sentem, às vezes boas, outras vezes ruins. Emoções que as atingem, causando desequilíbrio. Choram de dor provocada por uma lesão física, por falta de liberdade. Choram por ausências nessa vida, choram por fome e miséria. Pessoas choram por desilusões amorosas, por insucessos profissionais, por falta de aceitação social. Pessoas choram por todas as vitórias conquistadas, dizem que é o choro da felicidade. Os homens choram por amor e ódio simultaneamente. Seriam todos os chorosos bem aventurados?

Existe o choro motivado por uma agressão pessoal, onde é o indivíduo em particular que é agredido, magoado, ferido em sua estrutura pessoal, cuja causa pode ser consequência de ato ou postura equivocada do indivíduo ou de terceiros. A morte, por exemplo, é causa universal de pranto. Súbita, cruel, definitiva, a morte é sempre uma surpresa que traz em si a dor insuportável da separação, do fim. O choro do agredido encontra em Deus o consolo incondicional. Não existe maior conforto do que o colo divino que nos conforta com um acalanto maternal na medida de nossa dor, enxugando nossas lágrimas e mostrando-nos novas esperanças.

Mas existe um outro choro. O choro dos humildes, dos convertidos. Esse choro não é igual ao outro, pois, ao contrário do primeiro, a causa não está associada a uma agressão pessoal e sim existencial. É o choro sagrado diante da pequenez perversa do homem mesquinho e egocêntrico. É o pranto santo pelas vítimas dos valores humanos temporais. É como se Deus chorasse a destruição, a infelicidade, a ansiedade, a insaciável forma de ser de Sua criação, cuja vocação primeira fora a eternidade num plano espiritual em Sua permanente companhia. Choro de Deus através do homem pelos homens, que não se permitem acolher pela graça divina, que vive o seu curto tempo como se fosse eterno, definitivo e absoluto.

Poucos homens podem chorar o choro sagrado. Ter a capacidade de transcender, pela conversão, os limites do racionalmente correto e amar a humanidade na semelhança do amor de Deus. Ver com humildade a performance humana na arena da vida, onde as vitórias geram morte e são comemoradas até o próximo combate.

Bem aventurados os que choram o choro dos santos, sagrado. Cujo consolo é a graça de Deus manifesta na permanente comunhão. Promessa divina que se renova em cada nova conversão. Bem aventurados os humildes, que choram porque enxergam onde os olhos não vêem, sentem na alma a compaixão que os homens não sentem com a razão, vivem o amor inalcançável pelas pelejas da sobrevivência.

Bem aventurados os humildes, que são capazes de chorar. Eles amam. Amor pleno de Deus, que desvenda a eternidade, promovendo o pranto da compaixão do que é pelos que pensam ser.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

BEM AVENTURADOS OS HUMILDES DE ESPÍRITO

Mateus: 5, 1-3.

Na interpretação de Nietzsche, a humildade é simplesmente um aspecto da "moral dos escravos". É uma contestação ao pensamento religioso medieval, que apregoava a humildade como uma virtude pela qual o homem reconhece sua pequenez e seu pecado. Santo Agostinho enfatiza a via humilitalis, que é a encarnação do Verbo para redenção do homem. Santo Tomás considerava a humildade como a parte da virtude que coordena o desejo humano às coisas mais altas. Kant distingue a humildade em duas formas: moral, que é a consciência de nossa pequenez; e espúria, que é uma renúncia premeditada para a obtenção de um valor oculto.

Diante de tantos conceitos eu leio e releio o texto bíblico. Na tentativa mais profunda de entendê-lo, vejo uma multidão parada, contemplativa, sem proposta objetiva, sem provisões adequadas para ali estar, sob o jugo da escravidão romana à espera de um milagre. Humildemente a multidão aguardava. Numa análise fria, admito que a História da Igreja Cristã registre um permanente esforço das autoridades político-eclesiásticas de domínio sobre o povo, servindo-se das palavras de Cristo e pregando um modelo de virtude comportamental de submissão, interpretado por humildade. Nesse sentido a humildade é espúria, ou uma característica fundamental da escravidão.

Ainda na cena do texto, podemos ver os discípulos chegando perto de Jesus, que passou a ensiná-los. É nesse momento que entendo o que é humildade. O autorreconhecimento da pequenez e consequente incapacidade são fundamentos para a inconformidade existencial, que gera uma ação objetiva de desenvolvimento. E os discípulos foram à busca do conhecimento que lhes faltava, ainda que não tivessem plena consciência do que lhes movia para junto do Mestre. Motivados pela ação da humildade que eles iriam conhecer naquele momento, da boca do Cristo: "Bem aventurado os humildes, pois deles é o reino dos céus."

O reino dos céus é o lugar dos humildes. Porque os humildes enxergam as fragilidades dos valores culturais humanos. Eles percebem que o tempo escapa ao domínio humano: e tudo passa. A própria vida passa. Os humildes desprezam os valores morais que sustentam a sociedade humana, isso não significa um pacto pró miséria, e se lançam ao eterno num constante aprendizado de vida e fé. Os humildes não estão embaixo do monte, nem longe do Mestre, muito menos abestados na vida. A humildade não é pequena e sim grandiosa. A humildade não é alcançável intelectualmente, mas é fruto da ação redentiva de Deus e da conversão humana. Conversão que liberta e rompe as fronteiras do tempo e do espaço. E inaugura um novo tempo, uma nova vida capaz de compreender melhor  o mundo dos homens. Não existe conversão sem que se manifeste a verdadeira humildade.

Bem aventurados os convertidos, pois deles são o reino dos céus.